Marrocos e Revolu¨‹o. por Ahmed Rami

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Marrocos e Revolução

 

por Ahmed Rami

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No dia de 10 de julho de 1971, algumas unidades do Exército nacional marroquino, e em particular cadetes do colégio militar de Ahermoumou, sob o comando de seus oficiais, destruíram a calma de uma festa no jardim dada pelo rei, Hassan II, nos arredores de Rabat, quando repentinamente apareceram e metralharam alguns convidados. Alguns deles ocuparam a principal rádio e proclamaram a República. Entretanto, após uma série de fatos desconhecidos, os soldados abandonaram aqueles no comando dos incidentes: oficiais, generais e funcionários, foram mortos a bala.

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A reação mais comum aos eventos de 10 de julho de 1971 foi uma de surpresa. Mesmo se a monarquia marroquina não aparentasse estar mais protegida de um ataque do que quaisquer outras monarquias árabes, o ataque, quando ele veio, veio de uma área inesperada. Era conhecido que Mohamed V, então Hassan II, tinha feito o máximo para manter as forças armadas sob seu controle direto e evitar lhe dar qualquer base para alguma reclamação. É também suposto que eles mantinham um olhar cuidadoso sobre a fidelidade de seus oficiais. Ações-surpresa poderiam é claro ter saído desta área: estas seriam esperadas dos postos mais baixos e não dos oficiais superiores. As revoluções no Egito, Iraque e Líbia foram feitas por capitães e não por generais. Estes mesmos capitães, vindo do e se mantendo perto do povo graças a seus salários modestos, foram inspirados por uma ideologia islâmica. Que ideologia possível poderia ter instigado aqueles generais e coronéis de 10 de julho, mimados pelo regime?

Estes homens satisfeitos eram testemunhas diárias de um luxo infinitamente superior àquele que haviam recebido. Estes homens, condecorados mas sob o domínio de alguém que exercia autoridade absoluta, se levantaram se retaliação? Queriam mais riquezas e honras em imitação de um grande número de oficiais dos países árabes? A resposta a estas questões está talvez no arquivo dos Interrogatórios que precederam as execuções. A resposta será posta à luz em breve.

Se o segredo no que concerne aos líderes da conspiração irá se manter por enquanto, não poderiam as motivações dos envolvidos e de seus ajudantes serem reexaminadas? Por "ajudantes" nós queremos dizer aqueles que indiretamente tomaram parte pelo fato de que permaneceram silenciosos. Pois uma grande quantidade de silêncio ou de cumplicidade tácita seria requerida para esta coluna armada chegar de Ahermoumou a Skhirat, passsando por Fès, Meknès e Rabat, sem o rei, em nenhum momento, ser avisado disso. A atitude dos envolvidos foi explicada pelo rei Hassan II de duas maneiras contraditórias: alegou-se que estavam drogados; alegou-se que seus oficiais comandantes os persuadiram em acreditar que um complô estava em movimento para derrubar o rei e que era seu dever protegê-lo ou salvá-lo.

Nós não acreditamos em drogas. Estas sem dúvida permitem a uma pessoa ignorar o perigo e não agir contrariamente a seus profundos sentimentos. As testemunhas que testificaram concernente a isso eram sem dúvida confiáveis, mas basearam seu caso unicamente no júbilo anormal que os fazia aparecer ladrões em seu comportamento. Isto é para esquecer que uma errupção de extrema violência, ódio, rebelião ou dor podem criar os mesmos efeitos das drogas. Aqueles que viram a multidão histérica no funeral de Nasser também poderia ter acreditado no poder das drogas.

Do outro lado, difícil apesar de não ser imaginável, estes jovens foram tomados como conspiradores reunidos com intenções hostis contra o rei e o grupo de serventes civis de alto escalão, embaixadores e estrangeiros que com copos cheios de champanha ou pratos de salmão defumado, enchiam o palácio de Skhirat. Mesmo supondo-se que alguns tenham sido enganados, os outros, i. e. aqueles que foram proclamar a República na Rádio Marrocos, certamente não haviam sido enganados. É o estado da mente deste grupo de pessoas que seria interessante entender.

Quando um golpe bate num regime é bem normal procurar por sua causa no grupo oposicionista. Aqui, ninguém iria esperar um golpe militar e Hassan II mesmo, enquanto estabelecia uma tênue ligação entre as críticas desferidas contra a oposição e contra a tentativa de golpe militar, publicamente declarou que a oposição (e mesmo os amigos daqueles acusados em Marrakesh) não era responsável nem por sua concepção nem por seu planejamento.

É conhecido que o Partido Istiqlal permanece monarquista. O ponto de vista da UNPF é um pouco mais complexo: se é oficialmente monarquista (como poderia professar diferentemente em público?). É convencida de que a monarquia constitui a melhor defesa contra o "Sistema Feudal Islâmico" que um quer destruir e o principal obstáculo à vinda do regime "socialista" onde "a única solução" aos problemas econômicos e sociais enfrentados pelo país é vista. Os outros partidos políticos "legais" são apenas marionetes do rei e cumprem o papel de oposição.

Esta oposição mal-organizada e fraca representa apenas uma pequena parte da oposição real no Marrocos. Todos aqueles que tiveram contato com jovens na escola, estudantes e alunos de escolas secundárias, sabe quais são os sentimentos desta faixa etária não apenas quanto ao sistema mas também quanto a própria pessoa do rei. Não pode ser ignorado que os investigadores do incidente de Skhirat eram jovens, e, se não intelectuais, poderiam ao menos ter sido homens de certa abilidade acadêmica. (O nível da escola em Ahermoumou é obviamente longe no nível requerido na Universidade.)

Então o que pensa a juventude do Marrocos? Levaria muito para descrever isto em sua inteireza. Entretanto, mesmo aqui, a unanimidade não é a ordem do dia. Alguns vêem a solução numa ordem islâmica enquanto outros aspiram um "socialismo árabe". Entretanto, todos tem apreensões quanto a seu futuro e são profundamente atormentados pelo contraste existente entre a afluência de poucos e a pobreza de muitos.

Uns suspeitam que os cadetes de Ahermoumou, que executaram o golpe de Skhirat (e os rebeldes do golpe de 16 de agosto de 1972) eram movidos por uma ideologia exata. Seus repórteres de rádio ainda não apresentaram seu programa. Mesmo se tivessem falado a palavra socialismo, não teria significado muita coisa. Não foi o primeiro partido governante no primeiro parlamento marroquino chamado o "Partido Democrático Socialista"? Mas ninguém, sem estar movido por emoções poderosas, se entrega a atos de violência como os demonstrados em Skhirat.

Entre os detalhes reportados pelas testemunhas oculares concernente às cenas de 10 de julho, um em particular nos atinge. Os soldados que estavam procurando os convidados do rei não levaram dinheiro, entretanto pegavam produtos luxuosos como jóias e luminárias de ouro, jogavam-os no chão e pisavam neles como que possuídos por um certo frenesi.

Este pequeno detalhe pode ser ligado a outro maior, tão grande que é falado de Argel a Túnis, a Paris e tão longe quanto Washington e um não poderá ir ao Marrocos sem ouvir isto ser falado muitas vezes ao dia tanto por marroquinos quanto por estrangeiros. "Isto" se refere à corrupção (cf. discurso do rei a 4 de agosto de 1971). "O Império da Propina" é universal e o subdesenvolvimento dá a ele um chão mais favorável que em qualquer outro lugar. Num país pobre, o poder é muitas vezes a única e a mais segura fonte de riqueza. Mas Marrocos parece ter quebrado um tipo de recorde aqui, se não numa escala mundial - pelo menos nos standards maghrebinos e até árabes. (Na vastidão da Ásia tudo é numa escala muito maior). Na primeira metade de 1971 os escândalos proliferavam. No momento em que o monarca estava para sair do país numa visita oficial as coisas iriam mais longe antes que o governo dos EUA expressou o desejo de que a viagem fosse adiada devido à corrupção envolvendo tantos indivíduos de alto escalão marroquinos que o caso tinha de ser abafado. E não foi o general Madbouh que trouxe de Washington este infeliz pedaço de notícia, que, é reportado, "prova de culpa" na mão.

O mesmo Madbouh era um privilegiado entre os privilegiados de acordo com o próprio Hassan II. Mas quem fez tal coisa a ele e a seus cúmplices do 10 de julho de 1972 e a todos os outros privilegiados? Ninguém pensava que no Marrocos estas atrocidades seriam cometidas sem o conhecimento do rei e contra a sua vontade. Um ganha ainda mais a impressão de que apesar de umas poucas raras e espetaculares sanções contra as "atrocidades dentro da atrocidade" que era uma questão de um sistema de governo com o objetivo de se alinhar à classe dominante e nivelando por suas tentações, pessoas de valor especialmente jovens a quem a oposição arriscava engabelar.

Então um proeminente estudante marroquino, apesar dele poder ter sido trotskista ou maoísta , quando estudando na Universidade de Paris ou Estocolmo, foi descoberto um apto servente civil de alto escalão, completo com uma casa em Souissl (o bairro residencial seleto de Rabat), e mais ainda com uma conta bancária em Zurique. Sim, é verdade. E como poderiam os grandes poderes dos sindicatos e líderes das massas trabalhadoras trazer a revolução enquanto dirigindo carros dados pelo palácio? Sim, também é verdade.

Entretanto, desvantagens bem como vantagens eram parte do sistema. Aqueles homens que tinham uma riqueza de experiência sobre o Marrocos e na frente de quem, antes de 10 de julho, nós confessávamos nossas dúvidas concernentes à efetividade desta política e o futuro do regime ao qual nós havíamos nos confiado, rebatiam a nós que isto havia durado por séculos e que o marroquino médio continuava a ligar em sua mente força e riqueza e que aqueles que eles próprios haviam se tornado enfurecidos contra a corrupção estavam ao mesmo tempo prontos a cair a esta tentação se a oportunidade surgisse.

Dois erros históricos, nos parecia, enfraqueciam este argumento. Primeiro de tudo este argumento falhava em tomar nota das mais antigas tradições islâmicas, viz. o desprezo à posses que exemplifiquem as riquezas deste mundo. Pela eras, reformadores se levantaram a denunciar os ricos e poderosos (os dois sendo sinônimos) e de tempos em tempos envolveram as massas indigentes num tipo de cruzada revolucionária. A história do Mundo Muçulmano não é sem seus Savonarolas. Seu papel, se igualmente marcado, ao tempo em que os trabalhos concernentes à purificação religiosa estavam a ponto de fazer sua reaparição e aqueles autores não atrasaram em se submeter ás mesmas tentações que havia sido a desfeitura dos trabalhos de predecessores. Mesmo no Marrocos estes reformadores vieram do Sul, em sua maioria um país de seca e pobreza.

Almorávidas, Almohades e mesmo El-Hiba do século XX etc. Hoje, estes homens do sul, berberes ou árabes (que importância tem a raça aqui?) se acampavam nos portões das cidades; eles populavam quase um terço das favelas das comunidades maiores.

O segundo erro falha em tomar nota das sérias mudanças que afetaram o Marrocos moderno. Neste ano há um milhão e meio de crianças em nossas escolas, quase todas das quais aprendem francês. Para estas civilizações antigas não existe um "Grande Muro da China" para sua proteção. Os homens velhos, é claro, não desapareceram inteiramente e Skhirat, enquanto assumindo um ar maghrebino, não mais permanece o que era. O camponês-que-se-tornou-sultão do folclore tradicional era o único modo possível de superar a pobreza. Hoje é conhecido, mesmo nas favelas, que outros métodos de superar a pobreza existem, exemplos os quais tem sido oferecidos por nações inteiras. Antigamente, era dito dos ricos: "Deus lhe ajudou". Hoje em dia isto já não é o caso de todos os ricos. De fato, alguns bem simplesmente os vêem iguais a ladrões. Jovens e pobres abandonadores da escola que não podem pensar num posto na administração (porque 7096 dos empregados estão abaixo de 40 anos de idade) nem podem esperar por um trabalho no setor privado porque de cem a cento e dez postos foram criados durante os anos de fartura, quando, na verdade, o dobro disso teria sido necessário apenas para enfrentar a explosão demográfica. Como podem manter qualquer sentimento além de um de ódio contra os recipientes de tais luxos queridos e obtidos com dúvidas em relação à origem?

Março de 1965 viu os habitantes das favelas de Casablanca tomarem ação. Tal foi a repressão a suas ações, de acordo com uma testemunha "que eles jamais irão agir tão rapidamente de novo". Desemprego entre os acadêmicos junto com uma rebelião dos graduados produziram um perigo bem gigantesco e um potencial explosivo de magnitude ainda maior. Não havia nada que poderiam fazer contra veículos blindados? E aqui estão as razões pelas quais as revoluções do Terceiro Mundo não têm suas origens nos subúrbios como tiveram aquelas da Europa do século XIX mas sim nos campos militares.

Outro elemento extra que parece digno de nota é seqüência de eventos daquele dia maluco quando atos de violência foram mirados contra estrangeiros, o que é uma ocorrência singular no Marrocos, cujos nacionais demonstram um bem desenvolvido senso de hospitalidade apesar do contrário ser afirmado. Quando estes atos de violência foram executados por exemplo em 1907, 1912 e de 1953-55, tomaram a forma de lutas, contra tudo sendo ameaçador ou oposto à luta pela independência. Pense nos visitantes a Skhirat: embaixadores, doutores, homens de negócios, etc. foram tratados da mesma maneira, mortos por fogo de metralhadora. Isto não seria tornado conhecido e certamente não justificado mas seria explicado de uma maneira destituída de qualquer sentimento, entretanto breves ou poderosas.

Para um entendimento completo, algum método de recapitulação é necessário. Independência política não garante automaticamente independência econômica, especialmente quando a indústria moderna, que é a chave para o desenvolvimento, se mantém nas mãos da ex-metrópole que trouxe ou instigou a mencionada indústria. Países socialistas resolveram o problema através da nacionalização. No Marrocos, país que escolheu a opção liberal (no sentido econômico do termo), era necessário para garantir a independência que as classes altas nacionais substituíssem os capitalistas estrangeiros. É um fato conhecido que as classes altas não queriam ou não podiam fazer isto. Diferentemente de seus predecessores europeus do século XVIII, estes raros e poderosos mercadores não se transformaram em "empreendedores capitalistas". No ponto dos investimentos a longo prazo na indústria, eles preferiram investir a curto prazo e especular nos mercados ou em certos "negócios" como terra, propriedade, ouro, jóias, e deixar aos investidores estrangeiros os benefícios bem como os riscos da expansão industrial. Tão flagrante era a frouxidão que este Estado "liberal" mas "nacionalista" teve de seu auto-intervir, a uma sempre crescente participação nos investimentos industriais os quais sem a intervenção estatal seriam praticamente senão totalmente consumidos por capitalistas estrangeiros. No nascimento do NBID (Banco Nacional para o Desenvolvimento Industrial), cujo nome claramente define suas metas, com capital parte do Estado, parte de grupos estrangeiros, foi concordado que 10% de todas as ações seriam colocadas à disposição dos capitalistas nacionais. A política de não-envolvimento do último foi tão efetiva que os grupos estrangeiros tiveram também que subscrever sua 1096.

O programa para "marrocanizar" o setor terciário anunciado no ano passado satisfez adequadamente os desejos das classes superiores do Marrocos, instaladas confortavelmente na sombra de um setor secundário cuja responsabilidades e riscos são divididas entre o Estado e os estrangeiros. O programa desenvolveu rapidamente num redemoinho á linha Guizot (dinheiro é ganho e mais rápido naquela publicidade do que na feitura do porco de ferro), entretanto a ausência daqueles ferreiros que forjaram a indústria da França Louis Philippe era notável.

Os serventes civis de alto escalão (muitos dos quais eram eles mesmos produtos das classes superiores ou relacionados a ela através de casamentos) foram pegos no mesmo redemoinho. Os que permaneceram foram aqueles que escolheram estudar e conseqüentemente viram seu diploma se tornar um "Abre-te Sésamo" para uma verdadeira caverna de Aladim. Estas classes superioras tipo Louis Philippe fantoche amealharam seu dinheiro avariciosamente e esforçosamente evitaram qualquer sinal externo de riqueza. Esta tendência beduína de ostentação entre os dois extremos de fome e proficência está fazendo seu retorno entre os marroquinos novos-ricos: a certa esfera social da capital é considerado indelicado, não, vergonhoso, se divertir quando um não aspira a modesta possessão de uma piscina no jardim de sua residência.

Aqueles residindo duramente pelas entradas do esplendor eram submetidos à ostentação da parte de seus convidados mais opulentos. Tais pessoas tendiam a confundir seus desejos invejosos com sua profunda irritação por aqueles, tanto nacionais quanto expatriados, que partilhavam desta grandeza tão distante da pobreza de tantos e da mediocridade da sonhadora classe média. Dada um pouco mais de instrução e informação, lucradores locais do setor terciário irão vira ser tratados como serventes dos senhores estrangeiros do setor secundário. Isto fornece às revistas progressivas do Marrocos com um constante suprimento de material. Os intelectuais que editam as supra-citadas revistas estão familiares com Marx e eles denunciam as classes superiores, leais do regime, como ajudantes complacentes do "capitalismo ocidental".

Os cadetes de Ahermoumou não haviam nem lido Marx nem assinavam revistas progressistas. Entretanto, conheciam bem o fato de que os lucros dos mais eminentes entre as classes superiores e dos desonestos serventes civis são cuidadosamente depositados nos bancos dos países capitalistas. A fase ideológica ainda não foi alcançada, mas permanece como a indignação moral e nacionalista. Estes dois fatores eram tudo o que era necessário para colocar o regime às vésperas da ruína, iluminando o que acreditávamos fosse uma de suas fraquezas principais.

Um francês vivendo na mesma época no Marrocos nos informou que, enquanto na casa de amigos marroquinos, relatórios de hora em hora sobre os eventos em Skhirat eram transmitidos no rádio. Felicidade precedeu à tristeza e todos fizeram sua afirmação de lealdade em rodadas.

Um regime é rotulado arcaico quando ele não se acomoda às realidades sócio-psicológicas do povo ao qual é destinado. Não é a monarquia como forma de governo que está em questão: repúblicas arcaicas também existem. Entretanto, um país do século XX entretanto resistente sua antiga força não pode ser governada como nos dias de antanho. Um marroquino afirmou sobre Hassan II: "Ele afirma ser um rei moderno enquanto ao mesmo tempo governa o país do mesmo modo que Moulay Ismail (sultão em 1672-1727). Isto não é possível. O "governo" no Marrocos de hoje não consiste em "ministros" no moderno sentido da palavra mas sim de escravos para o rei "por Direito Divino" cuja vontade e ordens devem ser obedecidas e não podem ser questionadas.

O direito divino dos reis nunca foi sem seus riscos e desvantagens. Na complexidade do mundo moderno, se duvida da praticalidade do direito divino. O homem que reina sozinho está condenado a uma posição de maior isolamento ao ponto de se tornar prisioneiro deixado sem ajuda por seu isolamento. "Ele só escuta uma pessoa e a verdade não pode mais ser falada a ele". Esta queixa de conselheiros leais existe desde tempos imemoriais. Apenas a algum tempo atrás ela ressoou nos corredores dos palácios marroquinos.

Existem líderes "carismáticos" que igualam o isolamento do poder absoluto a um tipo de comunhão mística com seu povo. Na falta de grandes dons individuais de abilidade nativa aos antigos reis da França era dada a unção sagrada, aos sultãos alaouitas era dada a tradicional bênção marroquina "La Baraka". Teria isto sido suficiente no Marrocos de 1971 para garantir um meio de comunicação entre o monarca e seu povo?

Durante o decurso dos dias de 10 de julho de 1971 e de 16 de agosto de 1972, quem olhava com atenção eram espantados pela quase absoluta passividade do povo marroquino. Nenhum sinal de qualquer ajuda podeiam ser achados nem em apoio ao rei ou em ajuda ao bando de saqueadores. Tudo que acontecia aparentava acontecer num tipo de vácuo etéreo bem acima das cabeças dos mortais ordinários que não tinham nem o desejo nem a abilidade de se manifestarem. Tão rápida foi a seqüência de eventos que dificilmente houve algum tempo, é preciso que se diga, para os mortais ordinários reagirem. Entretanto, a segurança trazida pelo conhecimento certo da segurança do rei e do golpe abortado deveria ter trazido uma explosão de júbilo do "povo fiel". A falta de qualquer reação espontânea demonstra, mais uma vez, se ainda for preciso, a cruel solidão do poder absoluto e corrupto.

Outro aspecto do putsch, que não deve ser ignorado, existe mesmo que seu entendimento possa ocasionar alguma dificuldade.

É o seu aspecto berbere "siba". É um segredo aberto que as forças armadas reais contém muitos berberes. Berberes não apenas na maioria da "segunda classe", mas também nos escalões superiores do exército: a maior parte dos generais mortos a tiro em 13 de julho de 1973 eram originalmente do povo berbere. Isto se explica por razões bem naturais. O cobiça das armas e de uma carreira militar permaneceu bem virulenta entre as duras tribos montanhesas, que são em sua maioria falantes do dialeto berbere. Representar o putsch como uma insurreição contra os árabes por parte do povo berbere seria muito inexato. O que é necessário estabelecer é que Hassan II, sentido a escalada do perigo, reagiu, ao que parece, de um modo análogo àquele do protetorado ameaçado, colocando sua confiança nos berberes porque eram considerados os mais firmes, sendo mais tradicionalistas e menos contaminados pelos venenos da teoria modenista e da sociedade moderna. Sem sombra de dúvida o "Mito do Bom Berbere" tem uma dura vida e o mesmo desapontamento para aqueles que colocam sua confiança nele.

Uma frente unida raramente foi conhecida dos berberes; choques violentos sempre foram a característica dos clãs e tribos. Os ajudantes-de-campo do rei, massacrados em Skhirat, eram eles próprios berberes. Madbouh e os chefes da rebelião não eram apenas berberes mais também rifianos. É conhecido que a tribo Riff se levantou em 1958 pela FAR (Forces Armées Royales, isto é, Forças Reais Marroquinas), cujo príncipe, Moulay Hassan, era também o chefe de Estado-Maior. A repressão liderada pela FAR causou aos rufianos um período de dificuldades. Que papel possível poderia esta memória, profundamente entranhada e ainda viva, nas decisões feitas pelos chefes dos ladrões? Determinar isto é impossível. Do outro lado, o que pode ser estabelecido com certeza é que estas orgulhosas tribos montanhesas cujos generais, condecorados com honras, eram o orgulho e a esperança de suas tribos que não irão esquecer prontamente a imagens de seus corpos crivados de balas e cuspidos. Vingança é uma especialidade berbere bem conhecida. É entretanto servida fria.

Os rifianos em "sib" (dissidência) de 1958 anunciaram com entusiasmo competitivo: "Já aguentamos o suficiente do governo dos Fassis. Os numerosos habitantes de Fés, se a verdade é para ser dita, aqueles nos corredores do poder, tiveram um envolvimento puramente simbólico neste acontecimento: um símbolo da cidade com seu acumulamento de riqueza e itens de luxo, que cria e ao mesmo tempo aumenta o desejo de pilhagem, o ódio a pobreza e todas as reprovações puritanas. Mais uma vez chegamos aos fatores que já vieram à luz no misterioso affair de Skhirat e que nos permite sem sombra de dúvida colocar em seu correto lugar o detalhe do "sib berbere". Os berberes são talvez a ponta do iceberg desse exército camponês marroquino, um exército que foi levantado através dos séculos contra a luxúria e a opressão nas cidades e que sabe ainda que a pobreza não é um decreto fatalista de Alá. O instinto destas pessoas simples é aqui confirmado pela análise econômica: as estatísticas mostram que o aumento do nível de vida entre os habitantes das cidades, ou, para sermos mais precisos, de certos habitantes das cidades, tem aumentado às custas daqueles vivendo em áreas rurais.

É muitas vezes útil entender as origens de um movimento político analisando o que conseqüentemente se criou dele. No caso de um fracasso, como este, não temos este recurso. Entretanto, não é proibido se perguntar o que o golpe teria alcançado se fosse bem sucedido. Este é um reminiscente do regime dos coronéis da Grécia. Devemos também, do nosso lado, pensar um pouco sobre o sistema islâmico nasseriano. Se a bala que matou Madbouh tivesse prosseguido por alguns centímetros, o Marrocos de hoje poderia ser governado por um grupo de oficiais islâmicos nasserianos.

No ponto da revolução no Palácio, o putsch de 10 de julho de 1971 falhou em todos os aspectos. A realidade no que concerne ao ponto, nós acreditamos, é bem diferente. O que veio à luz dos sussurros de alguns desmazelados soldados equipados com armas e idéias são estes grandes problemas que os países de Terceiro Mundo têm, e que o Marrocos tem evitado por muito tempo enfrentar.

É verdade que por séculos o povo do Marrocos viveu freqüentemente em pobreza e miséria, entretanto a morte periodicamente limpava os excessos do seu povo. Hoje esse excesso é de cerca de 3.296 por ano, o que significa que a população está dobrando a cada vinte anos. E estes homens que não estão mais morrendo e não estão mais comendo, vão à escola e ouvem rádio; há transístores em cada barraca e nas noulas (habitações dos pobres). A era de submissão está no final.

O sistema que foi ao colapso politicamente a 10 de julho de 1971 e 16 de agosto de 1972 era aquele da velha ordem Makhzen, que durou anacronisticamente até mais da metade do século XX, durante 45 anos de protetorado e 30 de independência, consistindo em dirigir a riqueza do país para aqueles no poder e para os "abutres" que permaneciam perto deles.

A teoria econômica que se preocupa com desenvolvimento é ao mesmo tempo bem complicada e bem simples. Para produzir mais se deve investir; para investir se deve guardar; para guardar deve-se consumir menos do que se produz, o que quer dizer: se auto-privar. Através dos séculos os únicos que se privaram, e ao mesmo tempo tacitamente aceitaram isso, foram os pobres em sua maioria. Hoje, entretanto, eles não aceitarão isso: e aceitam muito menos quando eles veem uma minoria privilegiada se entregar à decadência sem sequer ter o mérito de ser o merecer. A igualdade concernente a esta privação é talvez nada mais que um sonho fantástico. É necessário, contudo, para essa desigualdade ser menos objecionável e que os pobres beneficiem-se eles mesmos dos seus sacrifícios, que para eles são os mais difíceis de se fazer.

A resposta é simples mas exige nada menos que uma revolução. Quando revoluções não são executadas de uma maneira pacífica (tais já existiram), são executadas em meio de sangue e destruição, onde os grandes sofrem menos que os pequenos. Mas o povo marroquino não tem escolha. Para o Marrocos é uma questão de vida ou morte. Ou os marroquinos irão adiante destruindo a monarquia corrupta ou eles irão sucumbir como uma nação islâmica independente e livre. No Corão é dito que "onde reis governam lá a corrupção vem à existência e transforma o povo livre em escravo. O Islçã é origionalmente uma ideologia revolucionária e um movimento contra a tirania e a monarquia hereditária.

 

A passagem para futuro ainda está aberta. Os estrondos de 10 de julho de 1971 e de 16 de agosto de 1972 são uma indicação segura de que a bola foi colocada em movimento. Hassan II e seus empregados são conseguirão parar o curso do tempo. O destino que teve o Xá do Irã deveria ter servido como uma lição para Hassan II e a todos os marroquinos e poderes estrangeiros que lucram com seu regime.

Ahmed Rami

 


 

 

AS REVELAÇÕES

DE AHMED RAMI CONCERNENTES ÀS TENTATIVAS DE GOLPE DE ESTADO NO MARROCOS

(Publicado na revista francesa "Le Liberal", Nov. 1973)

 

Junto com Oufkir, o tenente das Forças Reais Marroquinas Ahmed Rami preparou uma série de tentativas contra a vida de Hassan II, das quais a última foi metralhar o Boeing do presidente em vôo. O ex-ajudante-de-campo de Oufkir, Ahmed Rami, escapou do Marrocos onde ele está debaixo de uma sentença de morte. Um refugiado na Suécia, ele vive em Estocolmo onde nos contou sobre sua extraordinária aventura.

Antes de ser um dos mais promissores e excepcionais oficiais na Academia Militar Real, ele foi um dos líderes da Union Nationale des Forces Populaires (UNFP), criada por Ben Barka. Um jovem professor na escola secundária senior Mohamed V em Casablanca, Ahmed Rami se tornou um oficial na tentativa de destruir a monarquia. Foi com esse objetivo que ele aceitou o posto de ajudante-de-campo do general Oufkir. Aqui segue sua descrição e suas revelações estarrecedoras sobre Skhirat e a morte de Oufkir:

 

Eu nasci na vila de Alt Mar em Tafraoute, na província de Agadir. Eu pertenço à tribo Tahala.

Meu avô era o chefe da tribo Alt Rami. Alt Rami significa "a família do atirador". Antes da colonização francesa o poder real não tinha nenhuma influência na nossa região onde os líderes tribais faziam as leis e lutavam entre eles. Em 1935, os homens de Tafraoute fizeram um último esforço contra os soldados franceses que os derrotaram em Alt Abdala.

Meu pai, um simples trabalhador da terra, foi à procura de trabalho para Casablanca, deixando minha mãe e cinco crianças na vila. Ainda bem jovem, ajudei minha mãe a cultivar o difícil solo de Tafraoute. Minha tarefa principal era tirar as pedras dos campos para ficar mais fácil do arado passar pelo solo, um simples arado de madeira endurecido pelo fogo. Éramos tão pobres que fui mandado embora da mesquita pelo "Fquih", o professor do Corão da vila, porque eu não lhe tinha dado o presente usual.

Após o fim da pacificação, os franceses construíram uma escola a poucos quilômetros da minha vila. As mulheres da vila recusaram-se a mandar suas crianças para a escola com medo de que suas crianças fossem roubadas. Então minha mãe mandou-me para Casablanca. Minha chegada na cidade foi entre 1950 e 1952. Eu falava apenas a linguagem berbere. Tive sorte em achar trabalho como assistente geral numa mercearia onde eu tinha comida e acomodação. Eu dormia no chão em frente ao balcão da loja. Dois anos mais tarde eu estava entregando jornais e leite no quarteirão de Racine, uma área habitada pelos franceses. Em 1952, fiz greve para protestar contra o assassinato de um líder tunisino. Durante 1955, em Casablanca, incidentes de revolta e rebelião dos nacionalistas marroquinos aumentaram. Eu não queria ficar inativo então com uma garrafa de petróleo eu queimei um carro. O fogo que eu acendi no distrito queimou por um bom tempo durante a noite. Eu me tornara um lutador pela liberdade.

No final de 1955, como todos os marroquinos, eu estava esperando o retorno do Sultão. A forças policiais francesas, sabendo que logo teriam que deixar o país, deixaram o caminho aberto às organizações de resistência. Anarquia prevalecia em Casablanca. A mercearia foi assaltada por três homens que me ameaçaram com um revólver.

Após a declaração da Independência, eu me tornei umn vendedor de rua para um negociante judeu cuja filha, da mesma idade que eu, me ensinou francês.

Em 1958, eu voltei à minha vila e fui à escola em Tafraoute. Estudando à noite, à luz de velas, obtive meu certificado de estudos, em árabe e francês. Dois anos depois, depois de algum tempo na escola secundária de Tiznit, eu comecei os estudos na Ecole Normale Supérieure em Casablanca. Desapontado por essa independência que havia posto o povo debaixo de uma monarquia medieval, me juntei à UNFP criada por Ben Barka, e me tornei rapidamente um de seus líderes. Após fazer um discurso revolucionário num encontro da oposição, fui preso por cinco dias na estação central de polícia de Casablanca.

Em junho de 1963, me graduei na Ecole Normale Supérieure com um professor de ensino secundário. Designado professor de História e Geografia na escola secundária senior para garotas em Casablanca, também ensinava francês e árabe na escola secundária senior Mohamed V. Em 23 de março de 1965, uma demonstração de estudantes trouxe tumulto à Casablanca. Nosso grande inimigo Oufkir, o ministro do Interior, estava dirigindo o controle repressivo de um helicóptero. O exército abriu fogo contra os estudantes. Os mortos passaram de 400.

No dia seguinte a polícia em uniformes civis me prendeu na Ecole Normale. Colocaram algemas, vendaram meus olhos e me levaram de carro a algum lugar deserto longe do barulho da cidade. Por quatro dias e quatro noites eles me torturaram usando eletricidade. Uma semana depois fui libertado.

 

"Eu escolhi ser um oficial para trazer um revolução efetiva."

 

Eu percebi quão inútil minha luta tinha sido. 400 de meus amigos haviam pago com suas vidas a sua oposição ao regime feudal. Decidi entrar para o exército e me tornar um oficial. Como líder de uma divisão de soldados eu seria muito mais perigoso e mais útil do que simplesmente fazendo campanhas com estudantes desarmados. O caminho normal da carreira militar de oficial passa através da Escola Militar Real em Meknès. Me inscrevi lá no outono de 1965, e alguns dias depois Ben Barka foi preso no centro de Paris. O desaparecimento do principal lutador pela liberdade do Marrocos me confirmou em meu destino: entrar no sistema para destruí-lo.

Na Academia Militar, descobri que eu precisava da aquiescência do Ministro da Educação nacional para fazer a carreira militar. A permissão foi recusada e eu continuei trabalhando em minha escola com grande impaciência. No final do ano letivo, tentei mais uma vez entrar na escola de oficiais. Fui ver Ahrdan, ministro da Defesa Nacional, mas sem sucesso.

Então eu fui ao palácio real onde pedi por uma entrevista com o diretor do pessoal militar real. Consegui convencê-lo da minha séria intenção vocacional no tocante à carreira militar. Seis anos depois o general que me deixou entrar na Academia Militar organizou, junto com o coronel Ababou, a tentativa de Skhirat. Quando ele me viu no Palácio Real, será que ele imaginou que eu era um revolucionário? Várias vezes me perguntei essa questão após Skhirat quando cheguei à frente de minha brigada de tanques poucos minutos depois de sua morte.

Por dois anos fui o oficial em treinamento modelo, o que me permitiu ser eleito presidente da revista da Academia Real. Em 1968, me tornei um cadete-oficial. Durante meu tempo em Meknès minha única falha havia sido me recusar, junto com todos os meus amigos, a fazer uma marcha noturna. Como punição por este ato de rebelião fomos transferidos para Ahermoumou para a escola dos oficiais não-comissionados - chamados de cadetes do Exército Real. O tenente-coronel Aboubou estava no comando da escola. Pela segunda vez o destino me pôs em contato com um dos homens que iria se distinguir na luta contra a monarquia. Infelizmente, nem Ababou nem o general Madbouh me informaram da conspiração de Skhirat.

 

Meu primeiro encontro com Oufkir

 

A 10 de julho de 1971, os dois oficiais citados acima lideraram os cadetes da escola de Ahermoumou cercou Skhirat. Miraculosamento o Rei e Oufkir escaparam da morte. O general Madbouh foi morto. Coronel Ababou foi executado no dia seguinte. Um purgo sangrente decimou o exército.

Neste dia, 10 de julho, eu estava na sala de meus oficiais no campo Moulay Ismail em Rabat. Como comandante de uma divisão de tanques blindados engajada na defesa do Palácio Real eu estava esperando a oportunidade que talvez me fosse logo dada de fazer a minha parte pela derrubada da monarquia. Eu estava submerso na leitura de "Como realizer um golpe de Estado" quando o oficial supervisor, capitão Mazour, chegou meio-louco, e me informou que estado de alerta havia sido anunciado. Rapidamente pus meu uniforme, juntei meus homens e lhes ordenei que entrassem em seus tanques EBR. Eram 3 horas da tarde. Eu mandei destruir a porta do depósito de munições para equipar os 17 tanques que formavam minha unidade.

Estava saindo do campo quando vi o tenente-coronel Saad, chefe do pessoal da divisão de tanques blindados. Ele estava acompanhado por Abiroudi, comandante dos Fuzileiros Reais. Suas roupas estavam esfarrapadas e cheias de marcas de sangue. Em estado de pânico gritaram para mim: "O Palácio Real está sendo atacado por civis armados com armas e morteiros. Existem muitos mortos. Corra para o Palácio! Vá pela rua principal e atire em todos que estiverem armados!"

Liderando minha linha de tanques com a torreta aberta eu deixei o campo. Estava feliz com o pensamento de que civis haviam ousado atacar o santuário do déspota mas envergonhado de ter ficado inativo enquanto o destino de meu país estava talvez sendo decidido.

Tendo já decidido não obedecer ordens e dar uma poderosa ajuda dos rebeldes, decidi progredir em direção ao Palácio pela rua da costa. Tomando essa decisão unfortunada em de fato salvei o rei. Enquanto minha linha de tanques estava progredindo pela rua da costa, os caminhões cheios com os soldados do coronel Ababou estavam voltando da rua de Skhirat pela rua principal. Se eu tivesse tomado aquele caminho, teria me encontrado com os soldados rebeldes e com o apoio de meus 17 tanques a tentativa falhada de Skhirat poderia facilmente ter sido transformada em vitória.

Durante aquela tarde de verão as cercanias da rua da costa estavam cheias de pessoas olhando e andando que vinham à frente dos meus tanques. Já sabiam que uma tragédia havia acabado no Palácio Real?

Cheguei a Skhirat pela pequena ponte ao final da qual cinco policiais estavam controlando o tráfego. Passando pelos campos verdes do campo de golfe, meus tanques pararam defronte ao Palácio. Dei a ordem de parar e pulei ao chão. Entrei pela entrada principal onde havia um grupo de homens excitados. Entre eles notei o rei acompanhado por Oufkir e os generais Bachir e Driss Ben Omar. A chegada dos meus 17 tanques claramente não era esperada. As ambulâncias, os mortos e feridos e o pânico que prevalecia não haviam tirado minha calma. Fui em direção ao grupo. "De onde você veio, tenente?", Hassan II me perguntou. "Do campo de Moulay Ismail", disse, e adicionei: "Onde está o general Gharbaoul?", curioso para saber o que tinha acontecido com o comandante da divisão de tanques.

"Ele foi ferido", replicou Oufkir. Oufkir me pediu um cigarro (em vão, pois eu jamais fumei) e então perguntou o que acontecia em Rabat.

Lhe disse que não sabia e perguntei o que acontecera no Palácio. Descobri de Oufkir que o tenente-coronel Ababou, meu ex-chefe, e o general Madbouh (a quem eu devo o fato de ter me tornado um oficial) haviam atacado o Palácio liderando os cadetes, meus antigos amigos. Apontei a Oufkir que que o tenente-coronel Ababou era considerado o melhor oficial das forças reais. Eu estava completamente espantado. Oufkir, claramente em problemas, não respondeu. O rei então me pediu para me pôr à disposição de Oufkir. Oufkir adentrou meu tanque para voltarmos a Rabat. Na turreta do meu tanque EBR eu estava ao lado do braço direito do rei, o homem que eu mais detestava no mundo depois de Hassan II. Poucos dias depois, ele me tornaria seu ajudante-de-campo e logo me faria seu cúmplice em destronar o rei.

Chegando ao campo de Moulay Ismail, Oufkir me parabenizou pela minha frieza e me pediu para telefoná-lo porque ele queria me ver novamente. Depois ele foi ao posto do comandante (PC) da divisão de tanques e chamou os comandantes das divisões. Ababou havia ordenado que fosse anunciado no rádio que o rei havia sido morto, e que a República havia sido proclamada. Mas ele já era um homem derrotado.

 

Uma vala comum para os oficiais rebeldes

 

As vinganças contra os oficiais foram de uma selvageria até então desconhecidas. Cadetes feridos foram enterrados vivos em uma vala comum. No campo de Moulay Ismail Hassan II deu a ordem para a destruição do quartel-general do exército que fora ocupado pelos rebeldes de Ababou. Acredito que Oufkir o dissuadiu disso.

Aprendi posteriormente que Oufkir tivera um papel passivo na perseguição dos rebeldes. Do outro lado Dlimi, comandante da polícia, mostrava crueldade e impiedade. O rei pessoalmente tomou marte nas cenas cruéis. Coronel Chebuati, preso a uma cadeira, vendado e com os pés e as mãos amarrados, foi várias vezes espancado por Hassan.

- Quem é o covarde que me bate quando estou preso?, ele perguntou.

- Tire a venda fora, Hassan ordenou a Dlimi.

Chebuati cuspiu na cara do rei antes que muitos golpes chovessem nele.

- Amanhã seu corpo sem vida será cuspido, prometeu Hassan.

 

A 13 de julho, o campo de tiro de Temara foi transformado num matadouro. Amarrados a estacas, 13 oficiais foram executados por 13 esquadrões de atiradores cada um composto por 13 soldados. O rei estava presente neste massacre acompanhado pelo rei Hussein da Jordânia. Laraki, o primeiro-ministro, foi o primeiro a cuspir nos corpos mortos. Comandante Salmi cortou a mão de um dos executados para recuperar um par de luvas. Uma escavadeira passou pelos corpos arrastando-os para uma vala comum.

Terror reinou no Marrocos. Era raro que algum oficial ou oficial não-comissionado não tivesse perdido um de seus amigos na repressão. Meus amigos no campo e eu mal ousávamos falar. Todos estavam suspeitos de todos os outros.

A próxima semana o oficial comandante da brigada me informou que eu era esperado por Oufkir na sua residência em Souissi. Sentindo-me apenas meio-assegurado eu fiz o caminho até a villa de um dos que eu considerava um dos assassinos do meu mestre ideológico: Ben Barka.

Vestido em roupas civis, seus olhos escondidos atrás de óculos escuros que ele nunca tirava, Oufkir me tratou de um modo amigável. Me parabenizou pelo auto-controle e frieza que eu mostrara no dia de 10 de julho e me perguntou questões sobre minha infância e carreira militar. Ele me apresentou às suas crianças e ao seu pequeno filhote de leão, chamado Skhirat.

Me questionou detalhadamente no tocante ao estado de mente de meus oficiais e para salvar tempo eu me ofereci para entregar-lhe um relatório detalhado no assunto em três dias.

Oufkir usou todo o seu charme para atrair jovens oficiais vindos do posto que eu tinha. O Marrocos está entrando num período de dificuldades, ele me assegurava. Se o rei não realizar sérias reformas eu sinto que o exército vai preparar mais revoltas.

Apesar da má reputação de meu anfitrião eu fui gradualmente perdendo minha desconfiança dele. "Um número de generais e ministros são corruptos", ele me assegurou. "O rei está cercado por corrupção e ela também pode ser achada entre o pessoal do exército." Eu então mencionei-lhe o nome de um coronel que era bem conhecido por roubar dinheiro do departamento de finanças e suprimentos do exército. "Ele é um criminoso que deve ser eliminado", adicionou Oufkir.

Eu deixei o general e sua suntuosa casa mais do que resolvido a me alinhar com o demônio se fosse necessário para derrubar o potentado cujas mãos estavam vermelhas de sangue. A revolta de Skhirat tinha transformado Oufkir mas disso eu estava ignorante no momento.

Quatro dias depois eu entrei pela segunda vez na residência de meu novo aliado carregando um relatório inflamável de 30 páginas. Nesse relatório eu denunciava a corrupção dentre os oficiais e as promoções devidas ao favoritismo e suborno. Após lê-lo cuidadosamente Oufkir trancou o relatório numa caixa-forte escondida na sala de estar.

 

Oufkir me descreve o despotismo de Hassan

 

Depois do jantar, o general me contou várias histórias sobre a corte que ilustravam a servidão dos ministros e o despotismo de Hassan. Meu anfitrião fumava um cigarro após o outro enquanto lançava-se em violentas tiradas contra o regime. Me disse que num encontro recente do conselho de ministros Snoussi, o ministro de cor negra, replicou a um comentário feito por Hassan: "Eu sou seu escravo". Hassan declarou: "Não é suficiente dizê-lo, você deve sê-lo: é como minha dinastia sempre considerou seus servidores".

Durante a sobremesa o segundo homem no reino pediu-me para ser seu ajudante-de-campo e professor de um de seus filhos. Aceitei com a condição de que eu retivesse o comando da minha divisão de tanques. Isso me foi dado. Daquele momento em diante em vivi na villa do general e me tornei seu confidente. Ministros e generais estavam um após o outro na mesa daquele que o mundo chamava "o General". O amedrontante Dlimi tornou-se diretor da Segurança e nunca veio à casa do general. Eu acreditava, entretanto, que eles eram amigos.

Oufkir fez um hábito me contar segredos importantes quando eu o acompanhava em seu carro. No mês de setembro às 3 horas da manhã o general estava relembrando detalhes do golpe de Skhirat:

- 1000 oficiais não-comissionados em treinamento poderiam ter mudado a história do Marrocos e feito o país avançar um século. Nos mostraram o caminho. Devemos nos livrar da monarquia. Hassan mantém todas as tradições de uma dinastia que liderou o Marrocos ao desastre desde o começo do século XX. Neste mesmo momento, ao invés de se preocupar com os assuntos do reino, ele está em Fés com suas prostitutas. Ele tem um harém de 150 mulheres, algumas das quais foram sequestradas pela máfia pessoal do rei. Nosso rei é viciado em drogas. Seu Palácio se tornou um centro para o haxixe. Seu filho, que tem 7 anos, é presidente de reuniões e os homens beijam sua mão; é pior que o reinado de Luís XIV.

O general que falava um árabe bem ruim se expressava em francês, que não era compreendido pelo guarda-costas que nos acompanhava.

Eu, um simples tenente, estava espantado ao ouvir estes segredos. Sem esconder minha emoção, eu falei: "Você me deu uma grande honra ao contar-me esses segredos. Jamais lhe abandonarei. Estou pronto para executar o rei." -"Não, eu mesmo tomarei a responsabilidade por isso porque eu não deixarei a ninguém mais a honra de executar o tirano de meu país".

Daquele momento em diante um pacto foi estabelecido entre mim e o homem que havia liderado a repressão política contra meus amigos, e eu jamais falei a alguém os segredos que ele me contou naquela noite.

Eu tinha um quarto na casa de Oufkir onde eu dormia e a cada manhã eu ia ao campo Moulay Ismail onde eu retinha o comando da minha brigada de tanques. Meu poderoso aliado podia ser bem falante ou bem silencioso. Ele falava um grande tempo sobre Nasser e sua carta nacional que ele conhecia em grande detalhe. Ele queria que as bases americanas fossem removidas do Marrocos: "a maior das quais era o próprio Palácio Real", ele iria dizer.

Apenas uma vez ele falou comigo sobre o assunto Ben Barka:

"Eu não tive nada a ver com seu desaparecimento. Hassan foi o único responsável pelo assassinato de Ben Barka.

Não estava convencido sobre a inocência de Oufkir no caso Ben Barka, mas eu tinha que ser realista. Talvez tivesse feito uma aliança com o demônio, mas quando meu país fosse libertado da monarquia, haveria sempre tempo, eu pensava, para me separar de Oufkir e opor-me a ele se necessário.

 

Hassan começa a suspeitar de seu "protetor"

 

As preparações para o nosso primeiro ataque começaram três meses após Skhirat. O general me explicou seu plano a mim durante uma viagem de carro. Seu plano pareceu-me simples e efetivo.

 

- Hassan vem do quartel-general de pessoal quase toda a quinta-feira para comandar as reuniões com os oficiais comandantes. Na sala de conferência há um cofre no muro. Trancarei uma metralhadora no cofre. Depois que Hassan chegar, só precisarei pegar esta arma e atirar nele.

 

Ele desenhou a sala para mim mostrando a posição do cofre e indicando com cruzes os assentos ocupados pelos oficiais comandantes e os empregados-chefes no quartel-general. - Após executar Hassan eu direi aos oficiais que agi em nome do povo. Então tocarei uma fita com um comunicado que você gravará. Depois telefonarei para Driss, ministro do PTT (companhia nacional de correios) e pedirei-lhe que se ponha à minha disposição. Se ele aceitasse alegremente eu telefonaria a Moulay Abdallah sob qualquer pretexto o faria vir ao quartel-general onde o prenderia. Finalmente chamaria juntos todos os comandantes de divisão. Você esperará por mim no escritório adjancente à sala da conferência. Eu lhe chamarei e você irá à estação de rádio com as fitas pré-gravadas.

Usando um gravador de fitas comprado numa loja em Rabat eu gravei em árabe uma declaração que tive de ler ao general que aprovou-a após fazer algumas modificações. Ele pediu para enfatizar a palavra Revolução, o exército servindo ao povo.

Aqui está um sumário dela:

 

"A República Islâmica do Marrocos

 

Liberdade - democracia política e econômica - unidade islâmica.

 

Em nome de Alá, em nome de nossos mártires, em nome do povo, em nome da justiça e do direito, e em nome da vontade do povo de escolher o regime que desejam e de determinar seu próprio destino, nós proclamamos a República Islâmica, a abolição da monarquia que o Corão proíbe. Anunciamos que o tirano, o ditador, o louco Hassan II foi condenado à morte e executado pelo conselho provisório do comandante da revolução por todos os seus crimes e assassinatos contra nosso povo. Um conselho revolucionário temporário irá temporariamente dirigir os assuntos de nosso país até que um conselho revolucionário seja eleito por uma eleição geral.

O rei foi liquidado pelo exército para dar o poder à vontade geral do povo. Nós que começamos a revolução não temos varinha mágica para realizar a vontade geral do povo. Destruímos a dinastia; agora está nas mãos do povo colocar um fim à dominação dos pequenos reis que são achados através do reino. Agimos na qualidade de cidadãos e não na qualidade de soldados. Portanto, não dirigiremos nossas baionetas contra o povo mas sim contra os tiranos".

 

Tudo estava pronto para o grande dia. Uma quarta-feira em novembro Oufkir colocou a metralhadora e o rádio no cofre do quartel-general do exército. No dia segunte nós dois entramos num DS preto dirigido por um sargento-chefe. Estava preocupado e ansioso e a grande calma de Oufkir me impressionou grandemente. Apertou minha mão e entrou na sala de conferência.

Trancado no escritório adjacente esperei por talvez 30 minutos ou até 1 hora. Finalmente a porta se abriu, o general veio a mim e disse: "Falhamos. O rei acaba de telefonar-me para dizer que ele não vem".

Por sete longos dias eu esperei pela quinta seguinte. Mais uma vez o rei não veio para o encontro final. Oufkir me informou que no futuro as conferências aconteceriam no Palácio Real. "Vamos executá-lo lá", sugeri ao general. "É muito arriscado", ele replicou. "Vamos ter que achar outro jeito".

 

No final do ano Oufkir pediu ao rei que visitasse as barracas onde está a divisão de segurança BLS. Hassan enganou a trama e não foi.

 

Noutra ocasião esperávamos ele nas barracas de Moulay Ismail. Era o tempo do importante festival islâmico ( o festival do sacrifício de ovelhas). Entretanto, esperamos em vão porque este foi outro encontro ao qual o rei não compareceu.

Pensamos que teríamos sucesso em março. Hassan estaria presente numa conferência no rancho dos oficiais. Na sala da conferência, onde também tem uma sala de projeção, Oufkir escondeu sua metralhadora. Entretanto, cada vez mais suspeitante, o rei não apareceu.

 

Pouco depois, Oufkir escapou por pouco de um acidente de helicóptero em Agadir. Ele me assegurou que "Hassan mandou sabotar o helicóptero".

 

Antes do da conferência do Encontro da África o rei pediu que todas as divisões fossem colocadas em estado de alerta, aos próprios oficiais não sendo permitido voltar para casa. Sugeri a Oufkir que fizéssemos uma tentativa a 10 de julho, dia do aniversário de Hassan. Um ano após o massacre em Skhirat, as celebrações no Palácio de Verão aconteceriam com os convidados usuais e a luxúria escandalosa. O general rejeitou minhas propostas. Contudo, fui ao Palácio para as celebrações. Pela segunda vez fiquei frente a frente com o rei e notei seu aspecto estragado. Vestido como um vaqueiro, sua majestade, que estava balbuciando com seus convidados, pediu por alguns minutos de silêncio em memória das vítimas da sedição. No dia seguinte Oufkir esteve presente na recepção chamada "A noite das mulheres". Quando voltou ele me contou, nauseado, como o rei beijava suas cortesãs antes de jogá-las um punhado de diamantes. Os convidados atiravam-se se acotovelando uns aos outros para pegar as preciosas pedras jogadas ao chão.

 

O metralhamento do Boeing com tiros brancos

 

Em agosto, Hassan foi para a França. Tivemos que arranjar algo para seu retorno.

 

Sugeri ocupar o aeroporto de SaI~ usando homens confiáveis e atirar no rei quando ele saísse do avião. Oufkir me informou que ele havia decidido atacar o Boeing de Hassan usando caças F-5. Me disse que ele mesmo estaria em um dos aviões e participaria do metralhamento. Após uma breve visita à sua família, que estavam de férias em T~touan, meu cúmplice estava de volta a Rabat a 10 de agosto.

 

No dia seguinte ele se encontrou com o tenente-coronel Amkrane e pediu-lhe para metralhar o Boeing real. O retorno de Hassan estava programado para 16 de agosto. Na tarde de 15 de agosto, Amkrane, que estava extremamente doente, nos informou que ele não estaria apto a pilotar o avião e sugeriu Kouira como um piloto substituto, um homem de sua confiança.

 

- Você é o chefe, ele disse a Oufkir, você pode informá-lo.

 

Um encontro foi arranjado por telefone em Casablanca, num bar na Avenida Hassan II. às 3.30 da manhã, o general retornou. Me acordou para contar-me: "Tudo está pronto, estamos nas mãos de Deus". Quis ouvir mais uma vez a gravação que eu havia preparado para nossa primeira tentativa.

 

À noite ele não quis ir para a cama. Na manhã de 16 de agosto, ele foi para Temara para um encontro misterioso e voltou às 11 da manhã. "Três caças F-5 atacarão o avião do rei - desde o momento que ele voar sobre solo marroquino. Agora ele não vai escapar", ele me assegurou.

 

Às ~ horas da tarde o general telefonou ao coronel Hatimi, comandante da brigada de tanques, e pediu-lhe que fosse ao aeroporto. Pouco depois eu o deixei e fui ao campo de Moulay Ismail.

 

"Espere por mim lá, que eu lhe contatarei".

 

Às 4.30 da tarde, Oufkir ordenou que a brigada de tanques ficasse em estado de alerta. às 5 horas, meus 17 tanques estavam armados. Poucos momentos depois o general veio ao campo das barracas, em um 403, dirigido pelo comandante dos fuzileiros. Trinta minutos antes ele ouvira na torre de controle uma mensagem transmitida pela rádio do Boeing "pare de atirar, o rei está mortalmente ferido".

 

No posto dos oficiais comandantes ele estava falando com três oficiais da brigada de tanques quando alguém lhe chamou no telefone "em nome do rei". Jamais saberei o que o rei lhe disse porque eu jamais o vi vivo novamente. Ele saiu do campo num R16 dirigido por um capitão. Eu descobri depois que ele havia ido ao quartel-general do exército e ao aeroporto onde o rei tinha desaparecido.

 

A responsabilidade pela falha da operação está com o comandante Kouira que equipara as metralhadoras dos três caças com balas brancas de treinamento ao invés de usar balas explosivas. Ele trocara as caixas de munições. Outro azar foi que a metralhadora de Kouira parou de funcionar corretamente. Ele tentou fazer seu caça colidir com o Boeing e pular de pára-quedas. Os dois outros pilotos, tenente Zyad e tenente Boukhalif, haviam usado todo o seu suprimento de munições. Eles desceram em Kenitra, recarregaram suas metralhadoras e foram ao aeroporto de Sal~ o qual eles metralharam. O comandante Kouira desceu de pára-quedas em Oulad-Khaliffa, perto de Kenitra, onde a polícia chegou de helicóptero e prendeu-o.

 

Uma vítima suicida crivada de balas

 

Sem receber quaisquer notícias eu permaneci com meus tanques no campo de tanques onde eu esperei durante uma parte da noite. às 3 horas da manhã, uma rádio estrangeira anunciou que Oufkir deixara a base aérea de Kenitra. às 5 horas da manhã, France-Inter anunciou "General Oufkir cometeu suicídio". Apesar dessas amedrontantes notícias, eu não me desesperei, suspeitando que nesses momentos de loucura notícias falsas eram bem comuns. Ele havia me dito que se algo lhe acontecesse, eu deveria por as gravações em algum lugar seguro, as gravações que anunciavam a queda da monarquia.

No começo do dia, por volta das seis da manhã, deixei o campo pela saída do hospital e no meu carro, que estivera estacionado numa rua próximo, fui à residência do general. Parei meu carro atrás da villa e com meu uniforme escondido na jaqueta me aproximei do soldado que estava em guarda.

- O general voltou?

- Qual general?

- Oufkir.

- Ele está morto. Ande, você pode vê-lo.

 

O irmão de Oufkir me guiou ao corpo do meu chefe que estava coberto com uma toalha. Tirei a toalha e olhei o corpo crivado de balas. O peito, o estômago, e uma parte da face haviam caído para fora. As balas haviam sido atiradas pelas costas. Portanto, não fora suicídio.

 

A pasta, tão incriminatória para mim, não pôde ser encontrada. Eu tinha que fugir. Abandonei meu carro no centro da cidade após trocar meu uniforme de oficial por roupas de praia que eu havia encontrado no banco de trás. Me livrei da pistola automátiva 11mm que Oufkir tinha me dado. A cada cruzamento guardas armados estavam checando os ocupantes dos carros. Atrás da estação eu entrei num táxi velho que me levou a Yaakoub al-Mansour, uma favela de Rabat. Andei em direção ao mar e tirei minhas roupas ficando apenas com um par de toalhas de banho e fiz meu caminho em direção ao sul, a Casablanca. Antes de chegar a Skhirat eu decidi ir em direção à terra e fazer um longo desvio. Em Fedalah, comprei um djellabah (vestimenta típica do Marrocos) e uma peruca. Cheguei a Casablanca de noite inde descobri com um amigo que a polícia estava procurando por mim.

 

Minha fuga para a Suécia

 

Por dois meses e meio em viajei sem rumo, dormindo em qualquer lugar. Após viver por um mês num campo perto de Mador, fui até as Montanhas Atlas Centrais, onde vivi em um campo nômade entre ovelhas e cabras. Por oito meses cuidei do rebanho e perdi completamente o contato com o mundo. Em março, um posto mokhazin (a polícia das áreas rurais), forças do Ministério do Interior foram atacadas por alguns camponeses não longe do meu campo nômade. O exército, usando helicópteros, estava vasculhando a área. Eu tinha que fugir.

Após muitas precauções, cheguei à Suécia em agosto de 1973. Um dos poucos documentos que fui apto a reter estava me esperando pelo correio em Estocolmo. Estava assinado pelo comandante da Academia Militar Real e dizia:

"O cadete-oficial Rami é um professor graduado da Ecole Normale Supérieure e eera professor de árabe na escola secundária senior Mohamed V. Por causa de sua lealdade a seu país ele desistiu de sua posição de conferencista em palestras pelo posto de liderar homens no campo de batalha. É um oficial treinado possuidor da qualidade do sacrifício absoluto e um bem desenvolvido senso de organização; por seu senso de honra e serviço, o cadete-oficial Rami fez muito pela Ecole. Honesto, confiável, com senso de perigo e cheio de inquestionável coragem moral e física, o cadete-oficial Rami possui todas as qualidades que sempre fizeram grandes oficiais".

 


 

 

TENENTE AHMED RAMI

FALA DA TENTATIVA DE 16 DE AGOSTO DE 1972

(Publicado na revista "Afrique-Asie", dezembro de 1975)

 

P: Que papel Oufkir desempenhou na tentativa de 1972?

R: Para sumarizar, pode-se dizer que ele desempenharia o papel de Naguib e Spinola. Mas foram os jovens oficiais que planejaram e executaram a operação de 16 de agosto. Eles se beneficiaram da cumplicidade de Oufkir. Mas ele - e estas são suas próprias palavras - "apenas queria ter o papel de Naguib". Tinha conhecimento de sua reputação, de seus limites e do papel exato que ele estaria apto a realizar.

 

P: Ele tomou qualquer parte no affair Skhirat em 1971?

R: Ele sabia que planos existiam. E concordava com ele. Entretanto, não sabia dos detalhes concernentes ao local e tempo do golpe de Estado. Ele, como todos os outros, ficou surpreso pelos eventos de Skhirat. Tão discretos os oficiais que o planejaram haviam sido, que apenas um punhado de oficiais sabia sobre isso.

 

P: E sobre o assassinato de Ben Barka?

R: Durante o curso dos eventos em 1965, eu tinha um posto de professor em Casablanca e era membro da UNFP. Fui preso e torturado três vezes: 1962, 1964 e em 23 de março de 1965. Conseqüentemente quando eu e outros jovens nos tornamos oficiais falávamos muito sobre o affair Ben Barka com Oufkir, quando havia oportunidade. A questão de quem matou Ben Barka não era a mais importante para nós. Mas era o símbolo de Ben Barka que nos interessava. Este havia sido um assassinato político. Ben Barka era uma mistura de Lenin com Edgar Faure (i.e. esquerda ou direita), e como Oufkir, caiu vítima do regime e do rei o qual ele próprio havia ajudado a instalar no Marrocos. Um tirano, como um escorpião, age por instinto e não faz distinção entre "amigos" e inimigos. O seqüestro e assassinato de Ben Barka não foi o primeiro ato criminal de Hassan II; nem foi o último. Dúzias sobre centenas de militantes foram, como Ben Barka, fisicamente eliminados. Como o affair Ben Barka aconteceu na França, e porque tinha sido assunto da polícia francesa, esta assassinato político e criminal assumio proporções internacionais. O assunto deveria portanto ser colocado dentro do contexto político geral do Marrocos, i.e. o terrorismo selvagem de Hassan II contra o povo marroquino.

É dentro deste contexto que falávamos com Oufkir sobre ele. Aqui está o que ele dizia: "O rei criou uma força policial especial (SSS) que responde diretamente a ele e tem a tarefa de supervisionar o exército e os próprios Oufkir e Dlimi.

O sistema foi inventado por três experts da CIA. Nem Oufkir, que era o Ministro de Assuntos Domésticos, nem ninguém sabia todo o sistema. Era basiado no modelo duplo da Máfia e da CIA. O rei tinha dado a ordem (gravada por Oufkir) de que ele queria Ben Barka "vivo ou morto". Oufkir me contou isso e eu estou revelando pela primeira vez que quando Hassan II descobriu que Ben Barka havia sido assassinado pelos vigaristas, ele pediu a cabeça de Ben Barka ou seu corpo inteiro. Oufkir me disse também que "Ben Barka está enterrado debaixo do Muro do Palácio: entre o Palácio e a Faculdade de Direito 11. O corpo de Ben Barka foi portanto trazido de volta ao Marrocos sob o comando de Hassan II para ser enterrado na tradição de como os reis alaúitas até tinham tinham se comportado em relação a seus inimigos.

Oufkir nos fez compilar um dossiê para instituir procedimentos legais genuínos concernentes ao caso Ben Barka após o sucesso do golpe de Estado de agosto de 1972. Ele próprio afirmou que estava preparado para tomar sua parte da responsabilidade. Ele estava, como aconteceu, bem-informado. Entretanto, nos disse que ele avisara Ben Barka. Afirmou que quando Ben Barka estava no Marrocos, ele o avisara dos planos de Hassan II de matá-lo e aconselhou-o a deixar o país.

Diante de mim Oufkir jurou que ele não tinha matado Ben Barka. Ele disse que Ben Barka era o seu aliado natural. A esposa de Oufkir, ainda viva, pode testificar disto. Ben Barka era seu amigo pessoal. Uma vez, durante a resistência ao colonialismo, a esposa de Oufkir escondeu Ben Barka e ajudou-o a escapar escondendo-o no porta-malas do carro dela quando a polícia francesa o procurava. Devo deixar as coisas claras. Não sou eu que inocentarei Oufkir. Estou simplesmente repetindo o que ele me disse.

É minha opinião que este assunto não devia ser transformado numa espécie de assunto suspeito. Foi um assassinato político. Hassan II havia sentenciado Ben Barka à morte. E executou-o. Na realidade o próprio Hassan II só estava cumprindo ordens. De acordo com Oufkir, a data do seqüestro de Ben Barka havia sido adiantada por pressão da CIA e do Mossad israelense por causa que Ben Barka, no seu papel de secretário-geral, estava preparando uma conferência dos três continentes em Havana por iniciativa de Nasser.

No Marrocos, Hassan II é objetivamente apenas um agente da CIA, um agente dos Estados Unidos. Foi nesta condição que ele assassinou Ben Barka. Aqueles que são realmente responsáveis pelo assassinato de Ben Barka são a CIA, o Mossad de Israel, e os Estados Unidos. Hassan II era simplesmente seu agente neste caso. Antes da independência, a monarquia marroquina não era hereditária (de pai para filho). Os "Oul~ma" (estudiosos religiosos) escolhiam o sultão. Foi Ben Barka que, no começo da independência, no seu papel de presidente do "Conselho dos Conselheiros" oficialmente pediu a Mohamed V que designasse Hassan como "príncipe da coroa"! Ben Barka era professor de matemática de Hassan. O posto de "príncipe da coroa" sequer existia antes da sugestão de Ben Barka!

Mohamed V era o cavalo de Tróia do colonialismo francês e Hassan II é o cavalo de Tróia dos neocolonialistas americanos-sionistas! Filho do traidor Giaoul que ofereceu a mãe de Hassan, grávida, a Mohamed V. Hassan, como Kabousse, consequentemente tomou o poder por um comum golpe Estado por assassinando seu próprio pai numa operação cirúrgica menos em 26 de fevereiro de 1961.

 

P: O que poderia ter trazido Oufkir e Hassan II em conflito?

R: A mesma coisa que trouxe os oficiais e Hassan II ao conflito: símbolo da corrupção e decadência. Oufkir era talvez o único oficial de seu posto e geração que não foi corrompido. Ele deixou nada para trás em fortuna pessoal. A corrupção o escandalizava e o revoltava. A mentalidade de um rei que tratava o Marrocos como sua propriedade pessoal e a exploração do povo o revoltavam. Oficiais de sua geração tinham tido um treinamento francês e Oufkir achava que isto tinha lhe dado uma certa quantidade de dignidade de oficial. Por exemplo, beijar as mãos do chefe de Estado era, aos seus olhos, tanto incompatível quanto humilhante. Hassan II tratava seus oficiais como escravos. Em geral, os oficiais do exército estavam indignados e escandalizados com o fato de que Hassan usava o exército como força de ataque contra o povo e cão-de-guarda da monarquia.

Os corpos-de-exército dos oficiais muçulmanos, em geral, não podem ser usados indefinidamente para manter o status quo. Os soldados do mundo islâmico vieram do povo ficam por ele.

 

P: Se o golpe de Estado tivesse sido bem sucedido, que tipo de regime você teria instituído?

R: Queríamos instituir a Liberdade como método e não como conteúdo. As regras do jogo democrático e não jogo em si mesmo. Não estava nas nossas mãos, jovens oficiais, fazer decisões, mas para todo o povo do Marrocos, em um regime democrático. A propósito de conteúdo político e orientação do regime, Oufkir deixou-nos, jovens oficiais, com a iniciativa. Tínhamos preparado um plano, uma uma Carta política, e um programa provisório. O objetivo de Oufkir era acima de tudo se aliar conosco para eliminar a monarquia como o necessário primeiro passo. Depois estaria nas mãos do povo decidir que tipo de regime eles queriam. Nós, os jovens oficiais, tínhamos um programa, mas era um programa entre outros, sendo uma sugestão ao povo e não uma imposição. O sumário de nossas intenções foi publicado pela imprensa ocidental. Na proclamação, que iria ser transmitida a 16 de agosto de 1972 (ver "Paris Match", 29.09.1973), falávamos da República Islâmica do Marrocos. Nossas metas eram liberdade, democracia e unidade: unidade tanto nacional quanto árabe ("Em nome de Alá, em nome do povo, etc..."), liberdade do cidadão, democracia, justiça social, posse de todos os meios de produção pelo povo através de governo próprio democrático e descentralizado e respeito por propriedade privada que não explorasse o povo. Social-democracia e unidade árabe. Nós não concebemos um Marrocos isolado da nação Islâmica e Árabe. Não reconhecemos fronteiras artificiais criadas pelo colonialismo e pelo imperialismo. Fronteiras foram criadas para dividir os árabes e os muçulmanos para melhor comandá-los. A unidade árabe-islâmica não é um sonho romântico mas uma necessidade vital. Uma questão de vida ou morte para a nação árabe-islâmica e para todos os muçulmanos e árabes. Economicamente, politicamente e militarmente apenas uma unidade árabe-islâmica podenos tirar do presente beco sem saída que levou à divisão. Em direção a uma unidade islâmica e árabe existem problemas mas esses problemas podem e devem ser resolvidos. Entretanto, os problemas da catastrófica divisão presente só levarão à morte como uma nação islâmica e independência árabe. A existência e a força da usurpação judaica e do Estado bandido de Israel é construída em cima da nossa divisão e fraqueza.

 

P: Então o principal objetivo era eliminar a monarquia?

R: Sim. A monarquia é um poder pessoal. O rei é o "chefe". No Marrocos a monarquia não é, estritamente falando, uma "instituição" nacional mas sim uma Máfia. Apenas um homem está no comando. Tudo vem dele. Ele "gerencia" o Marrocos como sua propriedade privada e os marroquinos como escravos e entre o rei e o povo há um bando de bandidos e bastardos. Não se pode dar um passo adiante hoje no Marrocos sem a queda do rei. Não se pode portanto avançar, realizar os objetivos de desenvolvimento e democracia, sem abolir a monarquia, sem abolir o regime de Hassan II, e sem proclamar uma República Islâmica e um Estado democrático. Hassan II simboliza e persifica a corrupção e a decadência moral, política e econômica. "Ele é o Estado". No Marrocos é apenas por sua eliminação física que uma mudança é possível. Todas as tentativas de camuflar e tersvegisar seu regime podre falharam. Os políticos em verdadeiro estilo "Edgar Faure", i.e. os oportunistas, que nos fizeram perder muito tempo e fizeram o povo sentir desprezo pelos "políticos".

 

P: Era sua intenção proclamar a República Islâmica. Você tem consciência de que os "especialistas" ocidentais no Marrocos mencionaram freqüentemente tentativas berberes de tomar o poder.

R: Primeiro de tudo, uma república árabe ou islâmica não significa uma república racial ou étnica. Aos nossos olhos é uma definição do conteúdo político do regime que temos em mente. Por exemplo, é um fato totalmente supérfluo saber se Nasser, que é ele próprio um símbolo do arabismo, era, racialmente ou etnicamente falando, um árabe ou não. Ele é um muçulmano. Para nós arabismo se refere a uma nação unida por sua História, cultura e também pela religião do Islã. Também é uma nação islâmica que luta e que a revolução islâmica une. No Marrocos, o homem da rua não entende que é possível distinguir entre muçulmano e árabe. Para ele, cada muçulmano é um árabe, e cada árabe é um muçulmano. A nível de povo é impossível existir esta "divisão", este "antagonismo" do qual os "especialistas" imperialistas dos colonialistas franceses ou americanos falam e que eles próprios criaram. O Mundo Árabe-Islâmico é a alma do Arabismo, a cultura islâmica é a cultura árabe. Para nós, arabismo é Islã, e cada marroquino é um muçulmano e todos os nossos cidadãos são marroquinos; iguais e unidos. O Corão é a nossa verdadeira constituição e sua linguagem nossa língua nacional. Nossos problemas são políticos!

 

P: Os "especialistas", entretanto, apresentam Oufkir como um nacionalista berbere.

R: A palavra "berbere" é de origem européia. Aqueles que você chama "berbere" chamam a si mesmos de "amazigh" ou "chalh" e não "berbere". "Amazigh" significa livre, enquanto "berbere" vem de barbare, um qualificador que os romanos usavam para se referir aos habitantes de suas colônias e a seus escravos não-romanos.

Eu próprio, sou um "amazigh" e "chalh", nascido em Tafraoute, um Souss da tribo Tahala das montanhas Souss; mas eu não me considero "berbere"! Cada árabe, cada muçulmano é "amazigh", que é dizer, um homem livre nascido livre. Todos os marroquinos são "amazigh". ("Amazigh" é o oposto de "ahrdan" que significa escravo. Mahioubi Ahrdan é um escravo do rei e não um "amazigh"!) Oufkir era um marroquino! Um muçulmano, o que é o mesmo que dizer um árabe "amazigh"!

A divisão dos marroquinos entre "berberes" e "árabes" é um velho sonho colonialista que sofreu um fracasso total desde o fiasco infame da tentativa "Dahir Berber". Nossos problemas não são étnicos!

 

P: Mas Oufkir era o cidadão nº 2 do reino. Porque ele não tentou demonstrar sua oposição ao rei em num estágio anterior?

R: Do começo da independência todos os partidos políticos e elites políticas do país juraram lealdade ao rei e deram poder absoluto à monarquia. Oufkir era um soldado, não um político!

Oufkir jamais teve meios de derrubar o rei. Aqui você tem outra lenda que deve ser destruída: desde a independência Oufkir nunca esteve no exército. E o exército é a única força que pode derrubar o rei. Nenhum partido político colocou a monarquia em questão. Oufkir esteve no Palácio e no Ministério do Interior. Entretanto, nesta posição de Ministro do Interior, ele teve um corpo-de-exército sob seu comando: as humildes "Forças Auxiliares". Ele nos confidenciou que preparara um plano para derrubar o rei com as Forças Auxiliares, junto com o coronel Chebuati. Nós mesmos perguntamos a Oufkir esta mesma questão. Do início nós não queríamos nos envolver com ele a qualquer preço.

Oufkir também disse que ele jamais havia apoiado politicamente o regime de Hassan II, contrariamente aos políticos que continuam a fazê-lo. Trabalhava para o Estado como soldado, e quando da Independência, todos os oficiais políticos, todos os líderes entraram para o serviço de Mohamed V. Foram eles que o escolheram como Chefe de Estado. Foi o próprio Ben Barka na sua posição de presidente do Conselho de Conselheiros que propôs Hassan como "príncipe da coroa". Oufkir sofria da reputação que o povo tinha dele. Estava esperando por uma chance de mostrar sua verdadeira face.E esta foi a razão pela qual ele se aliou conosco, jovens oficiais, quando ele poderia ter se aliado com os generais e outros oficiais corruptos de alta patente. O exército é o espelho da sociedade marroquina. Quando, em 1971, entregou o comando do exército a Oufkir, ele instintivamente juntou mais próximos aqueles elementos no exército que exibiam tendências revolucionárias, e ele também se opunha aos elementos corruptos bem como aos "monarquistas" (No exército não haviam monarquistas por princípio, apenas por interesse). Oufkir tinha a mesma péssima reputação que ele dispunha junto ao povo junto aos jovens oficiais. O exército não é um corpo separado da sociedade marroquina. Quando, em julho de 1971, o rádio anunciou que o rei havia dado o comando do exército a Oufkir, os jovens oficiais receberam as notícias brabos e com objeções. Entretanto, bem logo, Oufkir adquiriu imensa popularidade dentro do exército. Nós, portanto, descobrimos que o tínhamos julgado mal. Descobrimos que muitas coisas que eram atribuídas a ele tinham sido inventadas.

 

P: Às vezes se diz que Oufkir era o joguete de poderes estrangeiros; França, os Estados Unidos e até Israel. O que ele era?

R: No Marrocos, Hassan II era o primeiro agente do imperialismo. Então, ao invés de criticá-lo, que estava na cabeça, aqueles envolvidos eram criticados: Oufkir, Dlimi, Benhima e Gudira.

Quando Gudira era Ministro do Interior, a imprensa apenas criticava ele. Mas o povo não foi enganado por isso: nas ruas se dizia "Gud~ra, não Gudira, deve ser criticado". Se Oufkir tinha a importância que as lendas lhe atribuem, e era ele que decidia nossa política, o regime teria, é claro, mudado após seu desaparecimento. O que se vê hoje? Se houve qualquer mudança, o regime é pior do que era. O Palácio Real no Marrocos é a maior base americana. Somos governados por um traidor e por um patife drogado. Mas se esse patife cair, o regime inteiro iria cair.

 

P: Sim, mas mesmo assim, quando ele estava sob sentença de morte na França, o governo francês permitiu a Oufkir que viesse a Lyons receber tratamento para seus olhos.

R: A França sabe que Hassan II é o "mestre" do Marrocos. Foram os franceses e os americanos que o colocaram lá. Hassan II não é marionete, os outros são, seus "ministros" e seus escravos é que são marionetes. Sim, ele é uma marionete dos franceses, dos americanos e dos sionistas mas não de seus colaboradores. O próprio De Gaulle disse que o responsável pelo seqüestro de Ben Barka foi Hassan II. Hassan é o agente dos americanos.

 

P: Quando Oufkir esteve no poder se falava freqüentemente das relações entre os serviços secretos marroquino e israelense.

R: Primeiro, a monarquia marroquina (como todas as monarquias árabes) e Israel tem os mesmos inimigos: a Revolução Islâmica.

Cada vitória da Revolução Islâmica é uma ameaça tanto a Israel quanto às monarquias árabes. Esses aliados dividem interesses e relações comuns. Israel, por exemplo, vendeu 100 tanques (AMX 13 toneladas) ao Marrocos após a guerra de 1967. Essa história causou um escândalo enorme no exército. Nos tanques os soldados encontraram moedas e jornais israelenses. Às vezes a insígnia do exército israelense podia ser vista da pintura descascada. Mais, os tanques estavam em péssimas condições. Oficiais franceses da divisão blindada (60 técnicos) vieram reparar esses tanques. Os reparos, quando finalizados, haviam custado mais que se o Marrocos tivesse comprado tanques novos. Oufkir não estava no exército na época. Mais, ele mesmo me disse que Mohamed V, esse "cavalo de Tróia" do imperialismo e do colonialismo, tinha, logo após a independência, apontado o Dr. Benzakin, um notório sionista, como ministro dos sistemas postal e de telecomunicações, para permitir a transferência do Marrocos a Israel dos judeus marroquinos que foram encorajados a emigrar para lá. Nós da capital, nas montanhas Souss, sempre chamamos o sultão de "naglid yiromein", isto é, o "rei dos colonialistas". Hassan II é o rei dos judeus e dos americanos.

 

P: Então após o desaparecimento de Oufkir, Hassan II foi apto a reestabelecer completamente a situação?

R: Os dois golpes de Estado enfraqueceram o regime mas a repressão e a ditadura foram apenas aumentadas. Fascismo "à lá Hassan II" e o sistema feudal marroquino ainda sobrevivem. Mas Hassan II nota que o tempo não está ao seu lado; ele sabe que não pode parar a marcha da História. Ele está fazendo o que pode para ganhar tempo. Nós temos um provérbio: quando um fogo está a ponto de desaparecer, faz um monte de fumaça. Neste momento Hassan II está fazendo muito barulho, está deixando muita fumaça.

 

P: A tentativa de implantar uma guerrilha no Marrocos, em março de 1973, foi séria?

R: A luta do povo jamais parou. Todas as tentativas armadas se incluem na revolução marroquina. A tentativa de 3 de março de 1973 é um episódio da revolução que ainda está em andamento. Foi um feito de coragem preparado com cuidado. Toda revolução tem suas falhas temporárias e curtas. Aprendemos com os nossos fracassos.

 

P: Há uma situação revolucionária no Marrocos?

R: Objetivamente, há uma situação revolucionária no Marrocos. O regime é anacrônico: feudalismo no meio do século XX. Se desaparecesse amanhã, ninguém se surpreenderia. O regime é historicamente condenado. Hassan II sabe muito bem disto. É assunto de mais alguns anos no máximo. Temos, no Marrocos, todas as condições de uma revolução radical e islâmica. Se ainda somos neo-colonizados, é porque ainda somos neo-colonizáveis.

 

P: De onde poderia partir o próximo alerta?

R: Hassan II proibe qualquer partido político ou oposição que não reconheça o presente governo monárquico. Isso significa que apenas partidos políticos monarquistas são tolerados. Qualquer crítica do rei e de suas políticas é proibida enquanto é o rei o responsável pelo regime e pelas políticas do partido governante.

Então de onde poderia o próximo alerta vir? Não de nenhum dos presentes partidos. Os partidos se auto-condenaram. Estão jogando o jogo do regime. Tomam parte na estratégia de camuflagem dele. As divisões entre os partidos são na maioria artificiais; não refletem as verdadeiras forças sociais do país. É Hassan II que cria e decide os limites.

A existência desses partidos bem como de seus líderes e a eliminação daqueles que não são tolerados. Foi também ele que subjugou a elite política, profissional e de propaganda. Estejam eles no "governo" ou na "oposição", estão apenas cumprindo os papéis ordenados a eles por Hassan II. O Xá do Irã também criou um partido de oposição ao seu regime: "A oposição à Sua Majestade". Os partidos traíram a revolução marroquina. Apenas fazem acordos com o Palácio para ter sua fatia de poder. O único modo que eles entram no Palácio é de joelhos. As duas tentativas feitas pelo exército e a tentativa de 3 de março de 1973 de derrubar o regime que resultaram na morte de mártires, foram vergonhosamente exploradas por políticos profissionais para tirar lucro político. Após o levante em Casablanca em 1965, que resultou em milhares de vítimas, e que foi totalmente espontâneo, Hassan II chamou aqueles homens que não haviam tomado parte nele. Esperaram até que Hassan II lhes oferecesse ministérios, se tornassem seus servidores e partilhassem algumas migalhas. Afirmam representar a vontade do povo. Na realidade, esses líderes títeres não representam seus "partidos" no Palácio, e sim o Palácio em seus "partidos". As lutas revolucionárias escolhem os homens; oportunistas são sempre descobertos no final. Os políticos profissionais são aqueles que esperam por uma revolução para criar uma atmosfera de medo, roubar isto e aquilo e usar o poder para colher seus frutos! No exército, também, temos nossos "portugueses", isto é, oficiais e soldados revolucionários. Se esses oficiais tivessem tentado um golpe e conseguido, não teriam mantido o poder para eles mesmos mas também certamente não o dariam aos partidos políticos da época. Se fôssemos aptos a iniciar uma revolução isto não iria de nenhum modo beneficiar aqueles que são parte do regime de Hassan. Os partidos presentes tem uma parte integral no regime e é nossa intenção destruir todo o regime. É Hassan quem impõe aos partidos "legais", aos homens que tem a "abilidade" de liderá-los, homens que devem ser expulsos, o que eles podem escrever em seus "jornais", o que eles podem ou não dizer, etc... É o dever dos revolucionários condenar esses homens que traíram e que participam objetivamente do regime de Hassan II. O único modo de pôr fim à exploração é instituir a democracia social, política e econômica, chamada "shora" no Islã. Para isto, Hassan II deve ser eliminado politicamente porque ele não irá se auto-eliminar. Apenas uma revolução pode abolir este regime. Devemos organizar uma frente unida para executar a luta islâmica. Há apenas uma luta que pode acabar com o regime. A experiência do regime Hassan II deve convencer-nos de que apenas com um ato de resistência política e armada sua ditadura pode ser destruída. Apenas a reinstituição do Islã revolucionário e puro pode salvar nosso país do abismo e da morte.

Abdelkrim al Khattabi, na mais escura noite do colonialismo, lutou em nome do Islã, armas na mão, em Rif, contra dois exércitos; o francês e o espanhol. Este é o único homem jamais traído. Ele viveu e morreu com honra. O exemplo de Abdelkrim deve guiar-nos. É a lição que devemos tomar após 30 anos do presente regime.

Aqueles que não desejam compreender devem ser deixados para trás e a luta deve continuar apesar deles. Nossa tristeza é devida ao fato de que muitos de nossos líderes políticos que sabiam como começar sua carreira em política (pela independência) com honra, não sabiam terminá-la com honra. Os líderes árabes não estão acostumados com uma "aposentadoria" honorável!

O exército sozinho não pode ser esperado que providencie a luta revolucionária. O povo inteiro deve providenciá-la. O que é o exército, afinal? É uma parte integral da sociedade marroquina. São os desempregados que se tornam soldados. São os alunos das escolas secundárias, estudantes sem trabalho, que experimentam a mesma miséria que o povo, que se tornam oficiais. Tem total conhecimento dos problemas enfrentados pelo povo. Não existem antagonismo entre o povo e o exército marroquino. No Marrocos, nosso exército não é um latino-americano ou europeu. É um exército jovem sem tradições ou casta militar. Militares e civis organizados em um partido para adiante podem executar uma revolução verdadeira, não uma revolução de centuriões mas uma revolução popular. O exemplo da revolução nasseriana nos mostra que os oficiais islâmicos e árabes podem ser apenas aliados naturais de uma revolução popular e sem alguma ação contra o déspota Hassan II pelo exército marroquino, o mortal imobilismo dentro o Marrocos pode durar por muitos anos no futuro.

 

P: Qual é o estado do Exército, após Skhirat?

R: O oficiais são, no presente, todos jovens. A velha guarda foi destruída de diversos modos. Portanto os oficiais tem o mesmo estado de mente que toda a juventude do Marrocos. É claro compreendido que dentro do corpo de oficiais, todas as divisões da sociedade existem. Os golpes de 1971 e 1972 provaram isso. Além disso, esses jovens oficiais tem testemunho diário da exploração do povo e da podridão do regime. Eles vêem cada escândalo. Sua raiva é aumentada pelo fato de que eles vêem que o regime os está usando para aterrorizar o povo e proteger a monarquia da raiva do povo. Sua dignidade é mantida no ridículo porque eles sabem que são usados como cães de guarda para a proteção da corrupção e da decadência. O exército de hoje é como um corpo de professores, um corpo de engenheiros e um corpo de médicos. Mas no exército a diferença está na disciplina e no senso entusiasticamente pragmático mais inclinado à ação que às palavras. De qualquer modo, o humor prevalente no exército é um de revolução. Hassan praticamente perdeu seu apoio no exército. Para um regime sem legitimidade popular e que é fundado apenas na força policial e repressão, é o fim.

 

P: Que influência teve a participação na guerra de Outubro de 1973 no exército marroquino?

R: Em 1967 e em 1973, a iniciativa pela participação veio dos próprios oficiais. Eles espontaneamente se colocaram como voluntários. Do rei Hassan II, ele temia o contato entre os jovens oficiais e os oficiais egípcios e sírios revolucionários. Em 1967, 60 oficiais ameaçaram demitir-se se não fossem mandados para o front. Hassan pode ter pensado que mandando-os para bem longe, ele se livraria deles. Mas o contato do exército marroquino com o povo da Síria novamente fortaleceu as tendências revolucionárias e unionistas dos jovens oficiais marroquinos que tem conhecimento dos verdadeiros objetivos de Hassan.

Para os marroquinos e, em geral, para todos os árabes, a luta contra o sionismo, imperialismo e reacionismo árabe são uma e a mesma. A luta contra o sionismo e o imperialismo e a luta contra Hassan II são complementares. Pelo exército, os levantes contra Hassan e a participação na guerra contra Israel são do mesmo tipo. Hassan II e o sionismo são inimigos do povo marroquino. Em 1967-68, os marroquinos do sul se levantaram contra o colonialismo espanhol. Foi Hassan II, àquela época chefe do exército, quem, junto com o exército espanhol, acabou com a revolta.

 

P: Os marroquinos estão mais para a Direita ou mais para a Esquerda?

R: Não somos nem um nem o outro, mais revolucionários muçulmanos. Aos nossos olhos não existem Direita e Esquerda, e sim reacionários e progressistas.

"Esquerda", "Direita", são noções importadas da Europa. Não temos necessidade de importar ideologias nem do Leste nem do Oeste. Tudo que temos de fazer é aplicar os princípios eternos do Islã achados no Corão.

A ideologia do nosso povo é o Islã. Não queremos fazer uma revolução com o povo que sonhamos mas sim com o povo que temos. Se você importar uma ideologia, deve também importar o povo e a nação, também! Somos árabes muçulmanos e acada uma de nossas revoluções deve sair do Islã. Evolução significa desenvolver o que somos em direção ao que queremos ser e não ficar imitando.

Apenas uma revolução islâmica, cultural, social, econômica e política pode por fim à esta decadência moral e política com a qual estamos vivendo presentemente.

Do modo como vemos, Islã e Arabismo são um. Não posso visualizar um arabismo desislamizado ou um Islã anti-árabe. Islã e arabismo são como mente e corpo. Inseparáveis. A ascensão ou declínio do Islã sempre depende da força ou fraqueza do mundo árabe muçulmano.

Nosso povo é muçulmano e religioso. Mas religião pode talvez ser interpretada de diferentes modos. Como ideologias. Deve-se fazer distinção entre idéias e suas aplicações, entre religiões e as aplicações que os homens dão a elas. Deve-se distingüir entre o Islã e os muçulmanos. Quando revolucionários falam do Islã eles compreendem uma revolução radical que não contradiz a revolução islâmica mas é sua fundação e origem e também parte integral. Não se pode separar a revolução do Islã. Tentar separar o Islã da revolução no mundo árabe é criar um Islã "obscuro", à lá Arábia Saudita. Deve-se compreender que o povo e os camponeses na monarquia tirânica islâmica feudal do Marrocos não tem a proteção da religião como eles tinham da Igreja Católica na Europa da Idade Média. Em nosso país não há Igreja ou casta de religiosos. Pelo contrário, no Marrocos, toda revolução foi islâmica. A revolução da Argélia foi chamada de a revolução Moulahadirie (os marxistas, do outro lado, foram contra ela desde o começo, como o Partido Comunista Francês).

O Islã é uma revolução. Todas as religiões, no começo, são revoluções por justiça social, dignidade humana e liberdade.

 

P: O que você acha das boas relações que existem entre o Marrocos de um lado e a URSS e a China do outro?

R: É dito que os dois maiores países socialistas do mundo, URSS e China, traíram seu papel em sua política doméstica e externa. Se tornaram mercadores de armas. A União Soviética, como os EUA, vende armas para a maioria das ditaduras, por exemplo para Hassan II. Vendem-as para todo mundo. O "Partico Comunista Marroquino", cuja estratégia é ditada por Moscou, se tornou um aliado objetivo de Hassan II. Esses regimes se tornaram grandes poderes vulgares interessados em grandes poderes. O pólo da revolução mundial não é mais a União Soviética nem a China mas mostra uma tendência de ir mais e mais em direção ao Terceiro Mundo. A União Soviética e a China estão traindo seu papel, estão apenas lutando entre eles para aumentar suas áreas de influências no Terceiro Mundo. Apesar de tudo eles são parte da revolução mundial para contrabalançar a hegemonia imperialista americana. Eles cometem erros mas com "auto-crítica" eles podem retificar e ajudar melhor as reprimidas nações do Terceiro Mundo. Vamos ter esperança nisso!

 

P: Quando você diz que a revolução marroquina é parte da revolução mundial você parece listar a revolução marroquina como pertencente à revolução árabe mais que à revolução africana. O que você diz disso?

R: Geograficamente, Marrocos é parte da África, mas culturalmente nós pertencemos ao mundo árabe-islâmico. Se você quis dizer a África negra não-islâmica, está cortada de nós. É chamada falante ou de inglês ou de francês (porque não das línguas nativas?). África, como Rene Dumont disse, "está mal dividida". No norte da África fomos bem sucedidos em proteger nossa personalidade e em nos libertarmos do colonialismo intelectual. Somos parte da África e também do Terceiro Mundo. Mas quando eu falo de unidade árabe-islâmica, não falo de nada novo que tem que ser criado. Falo de uma unidade que já existe, que existe na consciência popular e que precisa ser restaurada. Também gostaríamos de unidade com a África: vamos começar com a unidade cultural e linguística. É uma tendência do povo se unir. Mas com a África o assunto é principalmente criação de algo novo. Um esforço deve ser feito para abolir o deserto cultural, político e geográfico que nos separa. Hoje, para simplesmente se voar de Dakar para Rabar precisa-se passar freqüentemente por Paris. Politicamente e culturalmente deve-se também passar muitas vezes por Paris. Mas o problema, ainda hoje, é a presença de colonialismo cultural na África. A Argélia permaneceu "francesa" por 150 anos, mas não se chama falante de francês. As fronteiras entre os países árabes são artificiais e a unidade cultural existe por um longo tempo agora. Não oponho unidade islâmica e árabe contra unidade com a África, estou apenas dizendo que no caso anterior trata-se de uma unidade que deve ser restaurada, que existiu anteriormente e que ideologicamente, linguisticamernte, espiritualmente e politicamente existe entre os países árabes. Nós árabes só estamos divididos nos regimes presentes para sermos melhor controlados. Qualquer instituição de um regime democrático, legítimo e representativo num país árabe ou africano é um grande passo na direção da unidade dos povos. Os presentes conflitos e animosidades são o trabalho dos regimes ditatoriais neo-colonialistas que intendem a divisão para tornar seu controle mais fácil. São regimes não-representativos e ilegítimos. São regimes que representam o neocolonialismo e todos os interesses que vão com ele.

 


 

 

 

UM "ACIDENTE"

PARA EVITAR UM GOLPE

(Publicado na revista londrina "Africa Now", em março de 1983)

 

Quando o monarca absoluto do Marrocos, Rei Hassan II, foi avisado de que seu único general estava tramando um golpe, ele não perdeu tempo em silenciá-lo, de acordo com um oficial do movimento subterrâneo entrevistado por "Africa Now".

General Ahmed Dlimi, o braço direito do rei Hassan e comandante das forças do sul do exército marroquino, não morreu num acidente de carro conforme alegado pelo regime. Foi torturado e morto após a CIA ter informado o rei que Dlimi estava planejando um golpe militar para derrubar a monarquia em julho deste ano e criar a República Democrática Árabe Islâmica do Marrocos.

Num esconderijo secreto na Suécia, o tenente Ahmed Rami, líder do "Le Mouvement des Officiers Libres", o movimento subterrâneo dos oficiais do exército marroquino dedicado a derrubar o rei, disse a "Africa Now" que o General Dlimi foi chamado ao palácio do Rei Hassan em Marrakesh às 11 horas da noite de 23 de janeiro de 1983. Lá, 10 homens da segurança o escoltaram para uma sala de interrogatório subterrânea. À 1 hora, dois oficiais americanos chegaram com o rei e foram para a sala de interrogatório por algumas horas. Às 5 horas da manhã, Dlimi foi morto. Seu corpo foi depois colocado em seu carro que foi explodido num subúrbio, provavelmente como resultado de granadas colocadas dentro. A Mercedes a prova de balas de Dlimi foi destruída e a ninguém foi permitido ver o corpo, nem mesmo membros da família de Dlimi.

A imprensa marroquina agora veio com a história de um civil chamado Lhrizi que disse que ele estava no carro de Dlimi quando o acidente aconteceu. Mas existem fortes suspeitas de que Lhrizi, que foi ao subterrâneo, é membro da polícia secreta do rei.

Ahmed Rami está sob sentença de morte no Marrocos por sua parte na tentativa anterior de golpe a 16 de agosto de 1972 onde os "Officiers Libres" tentaram sem sucesso abater o Boeing que levava o rei Hassan II. Ele agora vive em exílio e é o homem de contato externo para o movimento dos oficiais revolucionários. Rami explica: "Dlimi evitava contato direto com os "Officiers Libres" no Marrocos. Mas ele freqüentemente viajava além-mar e era fácil para mim ser sua ligação com o movimento. Nos encontrávamos duas vezes por ano e mais frequentemente no ano passado para planejar detalhes do golpe de Julho."

"Desconhecido para nós, no entanto, era o fato de que a CIA estava investigando-o. Quando a CIA entregou um dossier ao rei Hassan em janeiro continha o videofilme do general Dlimi e eu numa reunião em Estocolmo do dezembro último. Era o suficiente para que Dlimi fosse eliminado".

Já a 1º de janeiro de 1983, uma importante firma de análise de risco de investimentos de Nova York, Front and Sullivan, tinham produzido seu "Political Risk from Territorial Disputes: A Global Survey", no qual o Marrocos era considerado um país com alto risco de violência e onde possibilidades de um golpe estavam aumentando. A firma havia notado a oposição à corrupção do regime de Hassan; as conseqüências da guerra prolongada no Saara Ocidental; a capacidade da Frente Polisário de conseguir vitórias sobre as forças marroquinas; os problemas econômicos continuados do país e a pobreza crescente - todos os quais aumentavam a possibilidade de uma alaternativa militar a Hassan.

A CIA percebeu que o favorecimento de Dlimi à ajuda francesa mais que à americana podia ser uma ameaça aos interesses dos EUA na região. (Havia rumores de que o rei pedira aos EUA por fuzileiros para protegê-lo. Mas os americanos insistiram que Hassan se livrasse de seus associados próximos que eram favoráveis a relações mais próximas com a França).

Contudo, o rei foi informado dos planos de golpe de Dlimi pela Inteligência americana e Hassan agiu imediatamente. Grupos de oficiais seniores foram detidos a 17 de janeiro de 1983 e 12 foram interrogados. Quase simultaneamente com a liquidação de Dlimi, três coronéis - Col. Bouarat, comandante da Guarda Real; Col. Ouazari, diretor da gendarmerie e o Col. Doukall - foram presos e subsequentemente executados. O rei colocou o exército em estado de alerta em 25 e 26 de janeiro depois que o palácio anunciou a "penosa morte" de Dlimi "num acidente de carro".

De acordo com um anunciamento argelino, alguns oficiais jovens foram presos mês passado por causa de alegados contatos com os "Officiers Libres".

Curiosamente, uma notícia dada pelo "The New York Times" de 26 de janeiro descrevia a emergência do Marrocos como o aliado árabe mais próximo dos EUA - mas não fez menção alguma da morte do único general do país e até a metade de fevereiro não havia nenhuma menção nos EUA apesar de numerosas notícias na Europa.

"Eu sou um homem procurado, vivo ou morto", diz o tenente Rami. "A polícia de segurança sueca já acabou com um complô para me raptar e eu tenho que ser bem cuidadoso - tanto dos homens do rei Hassan e mesmo de agentes profissionais da CIA".

Perguntado sobre como ele sabia dos eventos no Palácio, Rami disse que os olhos e os ouvidos dos "Officiers Libres" estão por toda parte. "E claro as comunicações entre, por exemplo, Casablanca e Paris não muito melhores que as entre Casablanca e Rabat."

Ahmed Rami, que cresceu no campo marroquino junto a pobres do povo berbere, é reconhecido como um intelectual na Suécia. Freqüentemente participa de debates públicos sobre assuntos relacionados ao Oriente Médio e às relações afro-árabes. Dentre os acadêmicos ele é conhecido como um agudo cientista político que escreveu penetrantemente sobre o nasserismo, o assunto de sua tese de doutorado.

O que não é conhecido é seu papel como revolucionário marroquino, trabalhando incansavelmente pela queda da monarquia em sua terra natal. Em encontros em Paris, Londres e Estocolmo no ano passado o General Dlimi e Ahmed Rami formularam os planos para o planejado golpe de julho deste ano. Ahmed Rami teria sido "contrabandeado" para o Marrocos em um avião militar uma semana antes do golpe para preparar-se para tomar o comando de um regimento panzer e tomar o controle do centro de rádio.

"Em Estocolmo no ano passado começados a fazer o rascunho do comunicado que iríamos transmitir à nação quando os "Officiers Libres" tivessem tomado o controle. General Dlimi e eu planejáramos no encontrar em Londres mês passado - fevereiro - por que ele ia acompanhar o rei Hassan numa visita à Grã-Bretanha junto com uma delegação árabe de altos dignatários. Mas então Dlimi foi exposto e assassinado".

O comunicado, Ahmed Rami disse a "Africa Now", seria algo mais ou menos assim:

"Em nome de Alá e de nossos mártires, em nome do povo, nós abolimos a monarquia e a tirania no Marrocos e em seu lugar colocamos a democrática República Islâmica do Marrocos. O rei será julgado por todos os seus crimes contra os direitos humanos e contra o povo marroquino.

Não fazemos isso em como soldados mas sim como cidadãos ativos.

Não temos fórmula mágica para resolver os problemas do Marrocos. É o próprio povo que vai resolver seus problemas, em cada cidade. Em cada quarteirão. Em cada fábrica e em cada vila.

Nós revertemos a lealdade do exército que, até agora, tinha suas armas apontadas para o povo para proteger o rei. Mas agora apontamos nossas armas para os tiranos e a corrupção. O exército vai no futuro exercer seu papel verdadeiro - proteger o povo do Marrocos. Nós derrubamos o "grande" rei, mas nós sabemos que existem milhares de pequenos tiranos no Marrocos os quais o povo tem que derrubar.

Le Mouvement des Officiers Libres decidiu se mover após a invasão israelense do Líbano. Não podíamos esperar mais enquanto Israel continuava a humilhar povos irmãos e Reagan estava pressionando os líderes árabes para reconhecer Israel. Reconhecer Israel é legitimizar colonialismo e a morte do povo palestino..."

Cerca de metade do comunicado seria devotado à necessidade de unidade árabe e a necessidade de trazer o fim de Israel. Também anunciaria que os "Officiers Libres" cooperariam com os jovens oficiais dos exércitos argelino e tunisino - com os quais relações já haviam sido estabelecidas - para derrubar esses regimes norte-africanos e contruir juntos a República Árabe Islâmica como primeiro passo para construir uma federação no mundo árabe.

Finalmente o comunicado clarificaria que os "Officiers Libres" não planejavam instalar um regime militar, mas, sim, um regime democrático concordado por todos os grupos políticos. Existiria uma Constituição com garantias legislativas para todos os partidos e garantias de liberdade de imprensa. A sentença de morte seria abolida e asilo seria oferecido aos árabe de qualquer lugar vivendo sob repressão.

Ahmed Rami disse que ele decidiu revelar todas as informações para "Africa Now" porque ele queria conter a versão oficial de que o General Dlimi morreu leal à monarquia.

General Dlimi era extremamente popular no exército, especialmente no sul. O rei sabia que se ele tivesse oficialmente executado Dlimi sem julgamento, ele teria enfrentado grande oposição do exército. Mais, rei Hassan queria que parecesse que Dlimi morreu a serviço da monarquia. Estava bem consciente da grande popularidade de Dlimi dentre os oficiais do exército e provavelmente esperava que eles copiassem a lealdade de Dlimi.

Existem mais de 150.000 homens no exército mas apenas o grupo subterrâneo sabia da ambição real de Dlimi de ver o final do sistema monárquico, então muitos poderiam ser enganados pela versão do rei do que aconteceu com ele. "É por isso que estou revelando que Dlimi, um grande homem, trabalhava incansavelmente pela queda de Hassan", explica Rami.

General Dlimi era um homem que havia passado por uma metamorfose. Fora treinado como oficial pelo exército francês e absorvera suas tradições de orgulho e dignidade - que tem suas raízes na Revolução Francesa. Após o Marrocos conseguir a independência em 1956 esteve entre os muitos oficiais que voltaram e formaram o exército marroquino. Para muitos foi um choque instantâneo ver que o rei Hassan intencionava usá-los como polícia contra o povo - tal jamais acontecera na França. Esperando atingir ainda mais dignidade como defensores de sua própria terra, se encontraram como lacaios de um monarca cuja vontade não era aquela do povo.

"Aqueles com acesso ao rei, como Dlimi, ficavam apavorados com seus excessos sexuais, sua abuso de drogas, seus interesses pessoais em tráfico em grande escala de haxixe no Marrocos", disse Ahmed Rami. "É um escândalo para o mundo árabe que tal pessoa possa ser chefe de Estado Além disso, Dlimi logo percebeu que tal monarquia absoluta não é compatível com o governo de um Estado moderno. Ele me disse que sob tal sistema qualquer desenvolvimento não era possível. Então, por causa de seus princípios honestos, Dlimi se transformoi de um oficial ordinário de carreira em um revolucionário politicamente consciente. Me disse que via como seu dever proteger a terra e seu povo, não apenas a pessoa do rei".

"Suas mãos não estavam livres, como rei Hassan exigia sua presença quase contínua, até ao ponto de fazê-lo ficar ao lado dele em jogos de golfe para pegar as suas bolinhas de golfe".

Ahmed Rami disse que o General Dlimi tinha uma visão maior que a de um nacionalista marroquino. Antes de Boumedienne tomar o poder na Argélia, o general Dlimi sonharam com um Maghreb árabe dirigido por Ben Bella da Argélia e compreendendo os atuais Marrocos, Argélia e Tunísia.

Era importante para os observadores mundiais verem a morte de Dlimi em seu contexto geopolítico expandido e entender porque a CIA agira mais uma vez em defesa de um regime árabe-africano favorável aos EUA. A CIA estava claramente investigando Dlimi por um longo tempo. Marrocos tem uma posição estratégica